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A ilusão do pouso suave

A ilusão do pouso suave
  • Publicado em 14 de setembro de 2022

Essa quarta-feira começa carregando ainda o gosto amargo de terça. Ontem o dia foi marcado por divulgações que trouxeram uma realidade mais dura do que se esperava.

Enquanto mercados se preparavam para serem surpreendidos positivamente por uma deflação nos EUA, o que se viu foi uma nova escalada nos preços e um sentimento crescente de descontrole da inflação por lá.

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Abertura do mercado no Brasil

No Brasil, os temores que ecoam do exterior se fazem sentir e trazem cenários de maior aperto à tona. Por aqui, ainda com agenda econômica esvaziada, a principal novidade do dia são os dados de vendas do varejo.

As estimativas apontam para alta de 0,3% no volume de vendas em julho, na comparação com o mês anterior.

A expectativa é que os dados de hoje, em complemento aos dados do setor de serviços divulgados ontem, possam trazer maior entendimento da atividade econômica no país. Ontem os serviços mostraram crescimento de 1,1% na comparação mensal, muito acima das projeções de 0,5%.

Caso a divulgação de hoje traga nova medição acima das expectativas, desenha-se um cenário de maior crescimento, o que deve se refletir no IBC-Br, uma prévia do PIB, divulgado amanhã.

Por outro lado, dados fortes de serviços e varejo começam a pesar sobre o Banco Central. Isso porque, com esses setores ainda caminhando com força, as pressões sobre os preços devem seguir acelerando, o que pode demandar novos aumentos na taxa básica de juros pelo BC.

Outro ponto que volta a pesar sobre o banco central por novos apertos monetários, são as pressões inflacionárias externas. Nos EUA, ontem, dados de inflação trouxeram à tona temores de descontrole de preços, o que se refletiu por aqui.

Vale lembrar que maior aperto monetário por lá se reflete em fortalecimento do dólar frente a moedas emergentes. Por aqui, os juros futuros refletiram o cenário de maior incerteza, e incorporaram parte dos temores de maior aperto monetário, e a curva mostrou abertura nos vértices curtos, médios e longos.

Resultado do leilão do Tesouro:

  • LFT com vencimento em setembro de 2028 – Volta 1: R$ 8,2 bilhões (67,9% da
    oferta – Taxa 0,1770%);
  • LFT com vencimento em setembro de 2028 – Volta 2: R$ 870,0 milhões (28,9%
    da oferta – Taxa 0,1770%);
  • NTN-B com vencimento em maio de 2035: R$ 2,0 bilhões (100% da oferta –
    Taxa 5,9264%);
  • NTN-B com vencimento em agosto de 2060: R$ 2,0 bilhões (100% da oferta –
    Taxa 5,9864%);
  • NTN-B com vencimento em maio de 2037 – Volta 1: R$ 4,1 bilhões (100% da
    oferta – Taxa 5,8430%);
  • NTN-B com vencimento em maio de 2037 – Volta 2: R$ 517,8 milhões (51% da
    oferta – Taxa 5,8430%).

Abertura do mercado nos EUA

Nos EUA, a quarta-feira segue embalada nos índices de inflação que movimentaram os mercados ontem. Para hoje, os olhos se voltam para os dados de preços ao produtor, o PPI.

A expectativa, assim como foi para os dados ao consumidor, é de deflação de 0,1%. Já o núcleo do PPI, que desconta
alimentos e energia da conta, deve apresentar alta de 0,3% no mês.

Assim como os dados de ontem, hoje, a expectativa é que as divulgações guiem o caminho dos mercados. Isso porque dados acima do esperado, mostrando inflação ainda fora do controle, devem voltar a pesar sobre os mercados e trazer nova onda de pessimismo com sinalizações de um Fed ainda mais hawkish nos próximos encontros.

A inflação ao consumidor divulgada ontem mostrou o pico de preços, que acreditava-se estar no passado, porém, que pode ainda nem ter chegado.

Contra as estimativas de deflação de 0,1%, o índice mostrou, na verdade, alta de 0,1% nos preços, levando o acumulado em doze meses para 8,3%.

Os títulos do tesouro norte-americano instantaneamente se valorizaram, precificando o cenário de maior aperto monetário, e uma possível recessão no
horizonte.

Membros do Fed que se mostravam irredutíveis em aguardar dados que confirmassem o controle da escalada de preços, agora têm em mãos dados que mostram exatamente o oposto. A inflação por lá segue preocupante, sem sinais de desaceleração.

Agora o cenário já precificado de maiores apertos monetário pelo Fed ganha ainda mais tração. Um aumento de 75 pontos base, que já era tido como certo,
passa a dar espaço às discussões que envolvem um aumento de 100 bps já na próxima reunião.

O monitor de probabilidades do CME Group, que apontava probabilidade de 91% de aumento de 0,75 p.p. em 21 de setembro, agora mostra 68%, contra 32% de chance de um aumento de 1 p.p., que até ontem, nem aparecia nas pesquisas.

O cenário na maior economia do mundo nos parece cada vez mais preocupante, com uma recessão cada vez mais provável no horizonte. Os juros devem continuar subindo, e se manter em patamares elevados por uma janela de tempo maior do que se esperava, a desaceleração econômica deve ser brusca, e o famoso “pouso suave” deve se tornar um sonho distante.

Mercado Interno

O Ibovespa completou o pregão de ontem com queda de 2,30%. O índice acabou afetado por pressões externas que indicam maior aperto monetário e consequentemente maior aversão ao risco.

Os dados de serviços acima do esperado trouxeram temores de que os núcleos ligados a essas atividades não mostrem desaceleração dos preços, pressionando a inflação e pesando sobre as decisões de política monetária do Banco Central.

Com isso, ao menos até o próximo Copom em 21 de setembro, o cenário deve ser de incerteza e de volatilidade.

Análise técnica Ibovespa

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O Ibovespa, analisando o gráfico diário, apresentou uma forte baixa que aumenta o viés negativo no curto prazo. Isto é, a perda dos 110.520 pontos (mínima de ontem) indica que é mais provável o índice buscar os 109.510 pontos.

Pensando em níveis de preço importante mais abaixo, temos também a região dos 108.500 pontos como média móvel no médio prazo.

Posto isso, o interessante para abrir posição seria aguardar o índice sair dessa zona de preço mais lateralizada, entre os 109.500 e 113.400 pontos, pois indicaria uma tendência mais clara.

Mercado Externo

Nos EUA, o S&P 500 fechou o dia de ontem com queda de 4,32%. O forte fechamento negativo foi impactado pela fuga de ativos de risco com perspectivas que apontam para um Fed mais hawkish.

Por lá, dados de inflação acima da expectativa reforçaram os temores de descontrole dos preços e deu força ao cenário de recessão no horizonte.

Com o Fed mais agressivo para combater a alta de preços, os juros norte-americanos devem seguir subindo, o que torna a renda variável menos atrativa,
pelo menos enquanto não houver perspectivas de fim do atual ciclo de alta.

Análise técnica S&P500

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O S&P500 com a forte queda apresentada ontem, fez com que a expectativa negativa aumentasse ao perder os 4.060 pontos e ao perder as duas médias móveis.

Entretanto, deve-se ter cuidado para buscar operações na ponta vendedora pois a relação Risco x Retorno é desfavorável visto que a próxima região importante mais abaixo seria os 3.900 pontos, nível onde o índice pode apresentar uma possível correção no tempo ou preço.

A perda dos 3.900 pontos implica no aumento do viés negativo e provável busca dos 3.700 pontos. Olhando para o gráfico semanal, o cenário também é mais
negativo.

Commodities

O minério de ferro encerrou essa madrugada em queda em Singapura. A commodity foi afetada pelos temores de desaceleração global que levaria consequentemente ao enfraquecimento da já combalida economia chinesa.

Lembramos, no entanto, que a retomada da atividade imobiliária chinesa nos próximos meses pode ser um driver de preços para o minério.

O petróleo opera em queda nessa manhã de quarta, com investidores buscando precificar um cenário de redução da demanda com os riscos de recessão global.

A Agência Internacional de Energia divulgou relatório ontem em que revisou as projeções de demanda para a commodity reduzindo suas expectativas em meio ao cenário de maior aperto, o que também pesa sobre
os preços.

Análise técnica petróleo

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O petróleo apresentou nos últimos dias uma correção (leve alta) buscando a média móvel no curto prazo. Porém, o ativo não anulou a tendência de baixa, onde seria necessário a superação dos USD 94.96/barril.

Posto isso, a perda dos USD 90,50/barril aumentaria a expectativa negativa de continuação da tendência de baixa. Já a superação dos USD 94,84/barril indicaria um primeiro sinal positivo para o petróleo.

Pensando no médio prazo (gráfico semanal) o ativo ainda se encontra em uma região de preço mais lateralizada.

Analistas responsáveis

Dalton Vieira – Analista CNPI-T

  • + 15 anos de experiência no mercado financeiro;
  • Analista de valores mobiliários (CNPI-TEM 910);
  • Credenciado pela Apimec desde 2010;
    Desenvolvedor do método DV de investimentos.

Henrique Tavares – Analista CNPI

  • Analista CNPI (CNPI EM-3176);
  • Credenciado pela Apimec;
  • Formado em Engenharia;
  • Aeronáutica pela Universidade Federal Uberlândia (UFU).

Leonardo Gibelli

  • Analista CNPI-T;
  • Analista CNPI-T EM-3376 credenciado pela Apimec;
  • Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Disclaimer

De acordo com a Resolução CVM nº 20, de 25 de fevereiro de 2021, Art. 21º, declaro que as análises realizadas neste relatório refletem única e exclusivamente a opinião dos autores, e foram elaboradas de forma independente e autônoma.

De acordo com o art. 21 da ICVM 598/18, caso o Analista esteja em situação que possa afetar a imparcialidade do relatório ou que configure ou possa configurar conflito de interesse, este fato deverá estar explicitado no campo “Conflitos de Interesse” deste relatório.

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As plataformas usadas para realização deste relatório são Bloomberg e Profit (Nelogica), além de portais de notícias nacionais e internacionais devidamente identificados quando utilizados.

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DVinvest

A DVinvest é a casa de análise fundada pelo renomado analista Dalton Vieira, que possui em sua equipe profissionais altamente especializados em análise fundamentalista e técnica de ações.