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Stanley e Carnaval: um match quase perfeito nos trópicos

Stanley e Carnaval: um match quase perfeito nos trópicos
  • Publicado em 9 de fevereiro de 2024

Às vésperas da maior festa popular do mundo, a notícia de que os copos Stanley possuem chumbo em sua composição – material altamente tóxico para a saúde humana – não deve arranhar a reputação da marca no Brasil, pelo menos no curto prazo.

O frenesi de vídeos na rede de entretenimento TikTok, que mostram usuários rompendo pontos de vedação para expor a substância, foi logo combatido pela empresa com o argumento de que o revestimento de aço inoxidável impede a contaminação do consumidor. 

Numa rápida e bela estratégia de gestão de crise, a imprensa, principalmente no Brasil, comprou a narrativa. Afinal, o vídeo viral de 2023 que mostra um carro destruído em chamas nos Estados Unidos, que supostamente tinha dentro um copo Stanley preservado ainda com gelo, é um endosso perfeito.

Expansão da Stanley

O momento não poderia ser mais propício. No auge da sua popularização e em forte expansão no país, a empresa americana anunciou, sem dar números absolutos, que 40% do seu orçamento de marketing será investido, neste ano, no Carnaval do Rio de Janeiro e Salvador, com ativações na Sapucaí e em blocos de rua.

Desde 2022, com o retorno da festa nacional após a pandemia, a Stanley aposta no Carnaval como um propulsor de suas vendas.

A empresa centenária que apresentou recentemente um crescimento estratosférico, ampliando seu faturamento em mais de dez vezes em quatro anos – U$750 milhões em 2023, ante U$70 milhões em 2019  – encontrou seu paraíso no mercado tupiniquim.

Não era para menos: o Brasil figura como o segundo maior consumidor de café do mundo e o terceiro de cerveja. Além de contar um clima tropical, ambiente que combina sobremaneira com a tecnologia que preserva a temperatura das bebidas.

Comportamento

Desde que desembarcou no país em 2015, conquistando inicialmente o público sulista pelo consumo de chimarrão e mate, logo a marca percebeu que o verão quente dos trópicos e o comportamento dos consumidores brasileiros traria um match perfeito para seus produtos. 

Foi preciso subir no mapa. Não tardou, e o copo Stanley virou figurinha carimbada nas quadras de beach tênis do Rio de Janeiro, nos churrascos de Minas Gerais, nas festas sertanejas de Goiânia, depois nas salas de aulas, academias e, agora, em qualquer lugar do país.

A linha de copos Quencher, por exemplo, que se apresenta como um produto de hidratação, tem sido uma das apostas da empresa para conquistar o mercado de lifestyle. Líder de vendas nos EUA, a empresa introduziu o produto no Brasil prestigiando uma gama de famosos, influencers e patrocinando eventos em academias. 

O sucesso foi inconteste. Com uma única garrafa, nas redes sociais, blogueiras de vários nichos conseguiram passar a mensagem de que é possível ser uma pessoa hidratada e ligada nas tendências, mesmo em meio a uma vida agitada, o que transformou a linha em símbolo de status entre mulheres.

Nem tudo que reluz é ouro

Mas o sucesso tem seu preço. O desejo inerente à marca que conquistou os brasileiros combinado com a desigualdade social do país, impulsionou a falsificação dos copos. Com preços altos, que variam entre cerca de 130 e 700 reais, a solução de grande parte dos consumidores para alcançar o status prometido foi recorrer ao mercado paralelo.

A empresa sentiu uma das faces do custo-brasil. Desde 2021, vem investindo em ferramentas digitais, inclusive com inteligências artificiais, para derrubar links de e-commerces de produtos falsificados. Aumentou seu arcabouço jurídico no país, e informou, inclusive, a inserção de um selo anti cópia em seus produtos.

Porém, a ameaça que antes estava no digital, chegou com robustez a pontos de vendas físicos. Quem nunca viu ou quis comprar um “Stanley” por 30 reais na praia que atire a primeira pedra. A comercialização encontrou espaços nas lojinhas de bairro e festas de rua.

O combate, então, entrou em dimensão transnacional, já que a falsificação repete a cadeia conhecida por tantas indústrias: a demanda brasileira encontra afago, eficiência e preço na China. O resultado é um país inundado de copos de procedência discutível.

E o match?

Enquanto outras marcas nacionais e estrangeiras surgem para surfar na onda da Stanley, a empresa segue em ritmo acelerado no lançamento de novos produtos. Num processo de “abrasileiramento” dos copos, lançou em outubro de 2023 a linha “Happy Hour”, releituras das tulipas e copos americanos, tradicionais dos cervejeiros brasileiros.

Mesmo com as adversidades da concorrência e a falsificação, o plano de expansão da empresa segue firme para conquistar ainda mais o gosto nacional.

Entre chumbo e pirataria, a marca Stanley estará como uma das protagonistas do Carnaval deste ano e seguirá, certamente, por um longo tempo tendo match, ainda que quase perfeito, com o mercado do Brasil. 

Imagem: Reprodução Instagram Stanley 

Written By
Higo Horta

Jornalista, analista internacional e especialista em marketing.