Pacote fiscal: economista analisa impacto econômico e desafios do governo
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Pacote fiscal: economista analisa impacto econômico e desafios do governo
29 nov 2024•Última atualização: 10 setembro 2025

O governo anunciou um novo pacote fiscal projetado para cortar gastos e ajustar a tributação, estimando uma economia de R$ 70 bilhões até 2026.
Com medidas que incluem ajustes na tabela do imposto de renda, taxação de dividendos e revisões em benefícios sociais, o pacote visa conter o avanço da dívida pública, que já atinge 78% do PIB.
Apesar da intenção de estabilizar as contas, as propostas geraram ceticismo no mercado e levantaram dúvidas sobre sua eficácia e impacto.
Para esclarecer os efeitos das medidas, conversamos com a economista Bruna Centeno, advisor na Blue3 Investimentos, que detalhou como o pacote pode influenciar o crescimento econômico, a arrecadação e as decisões de investimento no Brasil.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
1- Qual é o impacto esperado das medidas de corte de gastos sobre o crescimento econômico no curto e médio prazo?
Bruna Centeno: Quando a gente olha para o crescimento econômico, é importante lembrar que as perspectivas atuais mostram surpresas positivas. O PIB, por exemplo, tem previsão de crescimento podendo chegar a 3%. Porém, o pacote fiscal apresentado pelo governo, com impacto estimado em R$ 71 bilhões entre 2025 e 2026, ainda é considerado insuficiente pelo mercado.
O problema principal está na combinação dessas medidas com o atual cenário de arrecadação, que não é tão favorável, e a aprovação conjunta da isenção do Imposto de Renda (IR), o que reduz ainda mais as receitas.
Se o mercado acredita que a economia pode entrar em recessão, isso se torna uma profecia autorrealizável. Vimos, por exemplo, os juros futuros saltarem 0,4 pontos percentuais, precificando uma taxa de 15%.
Isso demonstra que o mercado não enxerga no pacote a capacidade de sustentar o crescimento no médio e longo prazo. Isso afeta diretamente a inflação e, por consequência, a confiança e o fluxo de investimentos no país.
No curto prazo, essas medidas tendem a arrefecer as perspectivas de crescimento. No longo prazo, podem aumentar o estresse econômico, com taxas de juros mais altas e balanços corporativos cada vez mais pressionados.
O impacto geral é uma economia mais retraída, com desafios adicionais vindos das incertezas globais.
2. O aumento da arrecadação estimado pelo governo é realista, considerando o cenário econômico atual?
Bruna Centeno: A visão geral do mercado é de que as projeções de arrecadação são extremamente incertas. O pacote promete uma redução de R$ 71 bilhões, mas ocorre simultaneamente com a política de isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil mensais, o que traz um impacto inicial de R$ 35 bilhões e pode chegar a R$ 43 bilhões.
Ou seja, já de início, metade do benefício gerado pelo corte é compensado por uma perda de receita. Esse movimento foi muito mal precificado pelo mercado, porque cria uma percepção de que o governo está afastando a estabilidade da dívida pública em vez de buscá-la.
Mesmo que a economia cresça 3%, o impacto da redução do IR dificulta alcançar as metas de arrecadação. O pacote entra já gerando uma perda de receita significativa, e isso reduz drasticamente sua eficácia.
3- Qual o cenário que podemos esperar com a implementação dessas medidas, especialmente em relação ao aumento da carga tributária?
Bruna Centeno: Um dos pontos mais relevantes do pacote é a tentativa de compensar as perdas fiscais por meio da taxação de dividendos e lucros acima de R$ 50 mil mensais, o que inclui o debate sobre taxar os super-ricos. É uma discussão relevante, mas historicamente complicada.
Se a gente olha para outros países que tentaram implementar impostos sobre grandes fortunas, vemos que poucos conseguiram resultados significativos. Esse tipo de medida enfrenta barreiras práticas, e no caso do Brasil, a arrecadação estimada pode não ser suficiente para compensar as perdas previstas com a isenção do IR.
Ao mesmo tempo, existe uma tentativa de promover justiça tributária ao isentar os rendimentos mais baixos, mas proporcionalmente o impacto acaba sendo maior sobre a renda dos mais pobres. O resultado é um aumento de carga tributária que pode não ser acompanhado por ganhos equivalentes em termos de arrecadação.
4. Como o pacote fiscal pode influenciar a trajetória da dívida pública e o cumprimento da meta fiscal em 2024?
Bruna Centeno: Hoje, temos uma relação dívida/PIB que já alcança cerca de 78%, o que indica um comprometimento crescente. O pacote fiscal traz projeções de economia de curto prazo, mas o mercado enxerga falhas significativas, especialmente devido à isenção do IR e outros ajustes que impactam negativamente o orçamento.
O cenário atual já nos coloca em uma trajetória de possível colapso fiscal. As medidas anunciadas, mesmo se aprovadas, servem mais como um paliativo até 2026. Porém, em 2027, será inevitável rever todas essas propostas para evitar um descontrole ainda maior da dívida pública.
Se o governo não atuar sobre os chamados gastos obrigatórios — como saúde e educação, que ficaram fora do pacote —, teremos um desequilíbrio ainda maior. Isso pode levar a medidas mais duras no futuro, criando um cenário fiscal ainda mais complicado.
5. O pacote fiscal é suficiente para retomar a confiança do mercado e melhorar a percepção de risco sobre o Brasil?
Bruna Centeno: O mercado já mostrou que não confia no pacote fiscal apresentado. Prova disso é a queda da bolsa, que perdeu suportes importantes e fechou em queda de 2%, além do dólar ter subido novamente. A curva de juros futuros também reflete esse pessimismo, com projeções chegando a 15%.
O que o mercado esperava era um plano mais robusto e com metas claras para estabilizar a dívida pública. No entanto, o que foi apresentado não atende a essas expectativas. Sem uma compensação clara para as perdas de receita geradas pela isenção do IR, o pacote perde força como instrumento de ajuste fiscal.
O risco percebido para a economia brasileira aumentou significativamente, e isso afeta diretamente nossa correlação com outros mercados globais. O Brasil precisava de um novo pacote fiscal, mas o que foi anunciado está longe de ser suficiente para garantir a estabilidade que o mercado esperava.
6. Como as medidas podem impactar as decisões de investimento, considerando o cenário de mercado e a confiança dos investidores?
Bruna Centeno: Sempre que uma economia apresenta desequilíbrios, é natural que os investidores busquem segurança. Isso inclui ativos como ouro, dólar e até mesmo criptomoedas, que têm mostrado valorização mesmo em momentos de instabilidade.
No caso do Brasil, o pacote fiscal gerou uma percepção de risco que afastou os investidores. Mesmo com a atratividade dos juros altos no país, o cenário de incertezas fiscais faz com que o capital procure ativos mais seguros em mercados externos. Esse movimento pressiona o câmbio, desvaloriza o real e prejudica ainda mais os ativos locais, como ações, que já enfrentaram quedas expressivas, como a do Ibovespa, que recuou mais de 2% recentemente.
Além disso, a busca por segurança tem levado os investidores a preferirem a renda fixa pós-fixada, que oferece liquidez e rendimentos de dois dígitos, mas em contrapartida reduz o fluxo para ativos de maior risco, como a bolsa. Isso afeta diretamente as perspectivas de crescimento das empresas e a confiança geral no mercado doméstico.
Essa dinâmica de fuga para ativos externos ou mais conservadores, como títulos públicos e renda fixa, mostra que as medidas do pacote fiscal aumentaram o pessimismo e não foram suficientes para tranquilizar o mercado.

Redação It's Money
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