Tarifaço de 25%: o castigo americano que devolve troco em dólar ao exportador
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Tarifaço de 25%: o castigo americano que devolve troco em dólar ao exportador
20 jul 2026

Por Sergio Brotto, CEO da Dascam Corretora de Câmbio
Washington confirmou a sobretaxa sobre produtos brasileiros, e o câmbio bocejou. A ironia dupla que poucos vão contar: a punição já tinha sido cobrada, em dólar, semanas antes de existir; e a fatura do que ainda vem não será paga em Washington, mas pelo importador brasileiro, pelo Copom e pela urna.
Terminou o suspense. Na noite da última quarta-feira, 15 de julho, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) confirmou a tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, com o aval do presidente Donald Trump, encerrando a investigação aberta em julho de 2025 com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
O relatório final classificou como “irrazoáveis” práticas brasileiras em frentes que vão do comércio digital ao desmatamento, passando por propriedade intelectual, etanol, combate à corrupção e, no centro simbólico do alvo, o Pix, acusado de colocar as processadoras de pagamento americanas em “desvantagem injusta”.
Ficam de fora da sobretaxa 1.698 códigos tarifários, entre eles café, carne bovina e suco de laranja, com a lista definitiva publicada no Federal Register. As exceções, convém dizer, não são um gesto de boa vontade com o Brasil: são autopreservação de uma indústria americana que não encontra substituto fácil para esses fornecimentos.
O tamanho do alvo é conhecido. Pela estimativa da Confederação Nacional da Indústria, cerca de 4,1 mil itens e aproximadamente US$ 14,9 bilhões em exportações anuais estão no perímetro da medida: ferro-gusa, açúcar, etanol, derivados de madeira e maquinário na linha de frente.
E há uma segunda espada suspensa: outra investigação do USTR, sobre trabalho forçado, propõe sobretaxa adicional de 12,5%. Na avaliação do próprio governo brasileiro, as duas medidas podem ser cumulativas, o que levaria à taxação de determinados produtos em até 37,5%. O tarifaço confirmado, portanto, pode não ser o teto; pode ser a primeira parcela.
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O paradoxo que ninguém vai colocar na manchete
Aqui entra a parte que interessa a quem vive de câmbio. Uma tarifa dessa magnitude deveria, nos manuais, pressionar o real: menos receita de exportação no horizonte, mais prêmio de risco. E pressionou, só que antes. O dólar subiu 2,38% em junho, quando a proposta veio a público e o mercado precificou a punição; foi nesse movimento que o exportador brasileiro recebeu, na conversão de suas receitas, o amortecedor cambial que compensa parte do que a tarifa lhe tira em competitividade.
O instrumento desenhado para punir o Brasil entregou ao punido um câmbio melhor semanas antes de existir. Que ninguém se iluda, porém, com a simetria: o câmbio compensa margem, não compensa volume, e não recupera o contrato perdido para o concorrente mexicano ou vietnamita que não carrega os 25%. Já o importador brasileiro paga a conta duas vezes sem ter feito nada, uma no dólar que subiu por antecipação, outra na inflação de insumos que esse dólar carrega.
“A tarifa é americana, mas a fatura cambial é brasileira e quem a recebe não é o exportador punido, é o importador inocente, o Copom e, agora, a urna.”
O bocejo do mercado e o que ele não está contando
No dia da confirmação, o dólar fechou praticamente estável. Em julho, a moeda americana acumula queda de 1,64%; no ano, recua 7,48% frente ao real, que ostenta o segundo melhor desempenho entre as divisas relevantes, atrás apenas do peso colombiano, sustentado por um carry que operadores estimam em rendimento implícito próximo de 13%. A leitura de mesa é simples: o tarifaço era o risco mais anunciado do semestre, e o mercado não precifica punição anunciada; precifica surpresa.
O problema é o que ainda não está no preço. A sobretaxa cumulativa de 37,5% não está. A resposta brasileira, a nota oficial da madrugada, classificou a medida como “marco lastimável”, anunciou recurso à OMC e a ativação da Lei de Reciprocidade Econômica. E retaliação, quando sai do papel, transforma um choque comercial pontual numa escalada com calendário próprio, justamente o tipo de processo que o câmbio cobra em prestações.
A urna entrou na cotação
E há o ingrediente que separa este tarifaço de qualquer outro: ele chega a menos de três meses do primeiro turno. O componente político é explícito dos dois lados: o Planalto vê na ofensiva pressão ligada à situação judicial do ex-presidente Jair Bolsonaro, e o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro foi pessoalmente à audiência do USTR argumentar que este seria o “pior momento possível” para a tarifa, pois a medida beneficiaria o presidente Lula.
Os primeiros números sugerem que o próprio pré-candidato tinha razão no diagnóstico: pesquisa Genial/Quaest divulgada no dia da confirmação mostrou Lula ampliando a vantagem, com 40% contra 28% no primeiro turno e 45% contra 37% em eventual segundo turno, e a reação do mercado foi ambivalente, com a curva de juros pressionada pela leitura de que a continuidade sinalizaria política fiscal menos austera.
Eis o nó para quem opera câmbio: a bandeira da soberania tende a favorecer o incumbente no curto prazo, mas o custo econômico da tarifa, menos exportação, mais inflação de insumos, cobra seu preço ao longo da campanha; e cada rodada de retaliação, de lado a lado, será lida pela taxa de câmbio simultaneamente como evento comercial e como evento eleitoral. Tarifa e eleição deixaram de ser dois fatores de risco: viraram um só, entrelaçados, com vencimentos semanais até outubro.
O Copom herda o choque em péssima hora
O Banco Central projetou, no Relatório de Política Monetária do segundo trimestre, inflação de 5,2% para o fim de 2026, acima do teto da meta, e o mercado se divide entre pausa e um último corte de 0,25 ponto na reunião do fim de julho, com a Selic em 14,25%.
O alívio recente veio de fora: a deflação ao consumidor americano em junho reduziu a pressão por alta de juros nos EUA, mas um choque de custos importado via tarifa, somado ao prêmio de risco eleitoral, é exatamente o ingrediente que faltava para transformar a pausa no ciclo de cortes em algo mais duradouro.
O que fazer na mesa de câmbio hoje, não na semana que vem
Para o exportador atingido, a ordem é não confundir o vento a favor do câmbio com estratégia: travar parte das receitas nos patamares atuais, revisar prazos de ACC/ACE e mapear a exposição por destino, porque a lista de exceções pode mudar e a sobretaxa de 12,5% ainda paira.
Para o importador, o recado é mais duro: o dólar comportado de julho é a oportunidade de fazer barato o hedge que ficará caro na primeira retaliação, proteção se compra quando não é notícia. E, para os fluxos casados em moeda estrangeira, vale antecipar o dever de casa da Resolução BCB nº 575, que a partir de outubro amplia o acesso às contas em moeda estrangeira no país: num cenário de tarifa, retaliação e eleição, ela deixa de ser conveniência e vira gestão de risco.
O precedente de 2025, o tarifaço de 50% revertido meses depois, mediante negociação, sugere que a história não termina aqui. Mas desta vez o instrumento jurídico é mais robusto e as exigências americanas tocam a política doméstica, do Pix à regulação de plataformas, temas que Brasília declarou inegociáveis. Reversão, se vier, terá preço. Até lá, o câmbio fará o que sempre faz com incerteza prolongada: cobrá-la, diariamente, de quem não se protegeu.

Sérgio Brotto
CEO da Dascam Corretora de Câmbio e uma das maiores referências no Brasil em legislação cambial e tributária. Com mais de 40 anos de experiência no mercado financeiro, já liderou iniciativas estratégicas no câmbio corporativo, sempre com foco em gestão de risco, inovação e governança.
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