A semana em que os bancos centrais escolheram esperar

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A semana em que os bancos centrais escolheram esperar

29 jul 2026Última atualização: 29 julho 2026

Roberto Simioni NetoRoberto Simioni Neto

Esta semana entramos no que o mercado brasileiro costuma chamar de “super quarta”, uma semana de definição de política monetária de vários bancos centrais. Na verdade, esses eventos de política monetária começaram na última semana com a decisão do European Central Bank (ECB) e se estenderão até a próxima semana com a reunião do COPOM (comitê de política monetária) do Banco Central do Brasil.

Até o momento, o que temos de concreto foi a reunião do ECB, onde o conselho decidiu, em decisão unânime, pela manutenção de suas três taxas básicas (a de refinanciamento principal em 2,40%, a de depósito em 2,25% e a de empréstimo em 2,65%), interrompendo, ao menos por ora, o ciclo de alta iniciado em junho em resposta ao choque de energia provocado pelo conflito no Oriente Médio.

A próxima reunião de política monetária, agendada para setembro, permitirá ao bloco entender os desdobramentos do conflito no Irã sobre a economia.

Os dados recentes de inflação apresentaram um alívio parcial, com o HICP da Zona do Euro recuando de 3,2% para 2,8% em junho, puxado pela desaceleração da energia (de 10,8% para 8,5%) e dos serviços (de 3,5% para 3,2%), e do núcleo (ex-energia, alimentos, álcool e tabaco) retraindo de 2,6% para 2,4%.

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As projeções de junho realizadas pelo próprio ECB preveem inflação de 3,0% para 2026, convergindo para 2,3% ao final de 2027, o que ainda reflete a incerteza sobre a duração do choque de oferta.

Do lado da atividade, o PIB da Zona do Euro recuou 0,2% entre o 4Q2025 e o 1Q2026. Entretanto, segue “em aberto” a possibilidade de uma nova alta ainda no 3Q, caso os preços do petróleo continuem pressionados, uma vez que o impacto inflacionário advindo da crise energética ainda não se manifestou por completo, e o Conselho segue atento aos riscos do efeito de segunda ordem.

Em discurso recente na conferência "The ECB and Its Watchers", C. Lagarde, a presidente do ECB, enfatizou que a resposta da autoridade monetária permanece ancorada em sua estratégia de política monetária e na avaliação tripla de inflação subjacente, transmissão e persistência do choque, e mantém o Conselho essencialmente reativo e dependente de dados até a reunião de setembro.

Com a atividade perdendo fôlego, mas a inflação de serviços e as expectativas de preços de energia ainda elevadas, o cenário mais provável é o de que o BCE mantenha as taxas inalteradas em setembro, exceto se houver uma nova escalada nos preços do petróleo que reabra a discussão sobre uma alta adicional.

Para o Federal Reserve, é esperado que o FOMC (Federal Open Market Committee) mantenha a taxa dos fed funds em 3,50%–3,75%. Desde que K. Warsh assumiu a frente do Federal Reserve, o quadro inflacionário surpreendeu para baixo, com o índice de preços ao consumidor recuando 0,4% em junho, levando o CPI de 4,2% para 3,5%, puxado pela retração de 5,7% nos preços de energia.

O CPI Core (ex-alimentos e energia) ficou estável no mês e desacelerou de 2,9% para 2,6% no acumulado de doze meses. Já o PCE (índice de preços de gastos com consumo pessoal), cuja medida é indicador do Fed para decisão de política monetária, reflete o choque energético de meses anteriores e, em maio, avançou de 3,4% para 4,1%; neste mês, o dado de junho do PCE só será divulgado em 30 de julho, um dia após a decisão do FOMC, portanto fora do horizonte informacional desta reunião.

Em seu depoimento semestral ao Congresso, em julho, Warsh reiterou que o FOMC "não tem tolerância para inflação persistentemente elevada" e reafirmou o compromisso com a meta de 2%, sem, contudo, sinalizar o rumo da próxima decisão.

E destacou o vigor do investimento em capacidade de inteligência artificial (que cresceu cerca de 25% em quatro trimestres no segmento de alta tecnologia) como um fator estrutural que pode tanto elevar o produto potencial quanto complicar a leitura de curto prazo da política monetária.

Na atividade, o payroll cresceu apenas 57 mil postos em junho, bem abaixo do consenso de 115 mil, e a taxa de desemprego segue em 4,2%. Os salários médios por hora subiram 3,5% em doze meses, ritmo moderado e compatível com a convergência gradual da inflação de serviços.

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No campo fiscal, o déficit orçamentário segue elevado e a relação dívida/PIB permanece acima de 120%, com o Fundo Monetário Internacional estimando a dívida geral do governo em 123,9% do produto e projetando crescimento de 2,4% para 2026 em base trimestre contra trimestre do ano anterior.

Diante de um núcleo de inflação em desaceleração, mas de um PCE ainda elevado e de um mercado de trabalho que perde fôlego sem indicar deterioração abrupta, o cenário mais provável para a reunião é de manutenção da taxa básica, com o Comitê preferindo aguardar o dado de emprego de julho e o PCE de junho antes de sinalizar qualquer movimento para a reunião de setembro, quando o Comitê volta a publicar suas projeções econômicas trimestrais.

Ainda nesta semana, no Reino Unido, o Bank of England (BoE) decide sua estratégia de política monetária. Na última reunião em junho, por votação de 7 a 2, optou-se por manter a Bank Rate em 3,75%, cujos votos dissidentes (hawkish) indicaram desejo de promover um ajuste dos juros para 4,00%.

Para essa próxima reunião, que será acompanhada de novo Relatório de Política Monetária, os dados de inflação trouxeram alívio parcial no CPI de junho, desacelerando de 2,8% para 2,6% em doze meses, embora a inflação de serviços tenha permanecido estável em 3,6% e o núcleo do CPIH permaneça em 2,8% pelo terceiro mês consecutivo.

No front de atividade, o PIB mensal cresceu 0,1% em maio, revertendo a contração de 0,1% de abril, com o avanço concentrado inteiramente no setor de serviços (+0,3%), enquanto produção industrial e construção recuaram.

No trimestre encerrado em maio, o PIB acumulou alta de 0,7% ante o trimestre anterior, sendo a sexta expansão trimestral consecutiva, ainda que na comparação interanual de 1,3% tenha ficado abaixo do esperado pelo mercado.

A taxa de desemprego subiu para 4,9% no trimestre fevereiro-abril, ante 4,6% um ano antes, com 1,76 milhão de pessoas desocupadas, evidenciando um mercado de trabalho que perde tração de forma mais nítida que nos Estados Unidos.

Recentemente, durante discurso em Sintra, o governador A. Bailey adotou um tom cauteloso ao afirmar que cortes de juros estão "fora de cogitação no momento", já que os britânicos "ainda não sentiram o efeito pleno" do choque de preços de energia decorrente do conflito entre Estados Unidos e Irã.

Em declaração posterior, reforçou que, embora os preços do petróleo tenham recuado nos últimos dias, eles seguem acima do patamar pré-guerra, de modo que "já existe alguma pressão inflacionária no pipeline" independentemente dos desdobramentos futuros do conflito.

Diante de uma inflação de serviços ainda resistente em 3,6%, de uma ala minoritária mas crescente do Comitê que defende alta de juros, e de um discurso do próprio governador que afasta a hipótese de corte, o cenário mais provável para julho é de nova manutenção da Bank Rate em 3,75%, com viés de risco inclinado para cima caso os preços de energia voltem a acelerar.

Por fim, no Japão, o Banco do Japão (BoJ), dando continuidade ao processo gradual de normalização monetária iniciado após o fim da política de juros negativos, elevou sua taxa básica de juros em 25 pontos-base, para 1,00%, em sua reunião de junho.

Na reunião marcada para esta semana, o mercado já precifica manutenção da taxa em 1,00% nesse encontro, com atenção concentrada na atualização trimestral do Relatório de Perspectivas (Outlook Report), que deve elevar a projeção de crescimento do PIB para o ano fiscal de 2026 para cerca de 0,8%, ante os 0,5% projetados em abril, ao mesmo tempo em que reduz modestamente a projeção de inflação.

A inflação ao consumidor acelerou de 1,5% para 1,7% em junho, impulsionada pela retirada gradual dos subsídios governamentais a tarifas de eletricidade e gás; o núcleo que exclui apenas alimentos frescos subiu a 1,6%, em linha com o consenso, mas ainda abaixo da meta de 2% do BoJ pelo quinto mês consecutivo, enquanto o núcleo que exclui também energia avançou a 1,7%.

O PIB do 1Q2026 cresceu 0,5% na comparação trimestral, representando o ritmo mais forte desde o 1Q2025, sustentado pelo consumo privado, pelo investimento público e pelas exportações, embora o investimento empresarial tenha sido revisado para baixo em meio a juros mais altos e sentimento corporativo mais cauteloso quanto a novos aportes de capital.

Já a moeda (JPY) segue sob pressão intensa, tendo atingido mínima de 40 anos frente ao USD, cotado a $163,6 num contexto que amplia a atenção sobre a comunicação do governador Kazuo Ueda quanto ao ritmo dos próximos movimentos.

O pronunciamento do BoJ tem sido no sentido de sinalizar que ainda é necessário continuar elevando os juros para conter a inflação. Assim, a expectativa é de que haja manutenção da taxa em 1,00% em julho, mas com sinalização de potencial aumento de juros de 0,25% ainda neste ano, provavelmente em outubro ou dezembro.

No caso brasileiro, a divulgação do IPCA de junho surpreendeu para baixo, subindo apenas 0,16%, ante alta de 0,58%. Essa desaceleração refletiu sobretudo o grupo de Alimentação e Bebidas, que caiu 0,24% no mês, e o alívio em parte dos preços administrados.

Já o IPCA-15 de julho, divulgado em 25 de julho, reacelerou a 0,33%, ante 0,26% em junho, puxado principalmente pelo reajuste da energia elétrica residencial e por transportes, levando o indicador acumulado em doze meses a 5,30%, ante 5,27% no mês anterior.

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No mercado de trabalho, a taxa de desocupação medida pela PNAD Contínua ficou estável em 5,6% no trimestre encerrado em maio, ante 5,8% no trimestre anterior, com o rendimento médio real ainda crescendo 4,0% em doze meses, embora em ritmo mais lento que os 5,3% do levantamento anterior, um primeiro sinal de acomodação na renda do trabalho, ainda insuficiente para aliviar de forma relevante as pressões inflacionárias vindas do lado doméstico.

Do lado da atividade, o PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 ante o trimestre anterior, o maior ritmo desde igual período de 2025, com destaque para a agropecuária (2,0%) e para a retomada dos investimentos, que avançaram 3,5% após queda de 3,4% no trimestre anterior; na comparação interanual, a expansão foi de 1,8%.

Os indicadores de confiança da FGV mostraram melhora firme em junho, com o Índice de Confiança do Consumidor subindo 2,1 pontos, para 90,8, o Índice de Confiança da Indústria avançando 3,0 pontos, para 100,1 pontos em doze meses, e o Índice de Confiança de Serviços também melhorando. O Monitor do PIB da FGV indicou expansão de 1,8% no mês, com acumulado de 2,0% em doze meses.

A leitura mais recomendada deveria ser de manutenção da Selic em 14,25% na reunião de agosto, priorizando cautela e sinalizando que qualquer retomada do ciclo de cortes dependerá da consolidação da convergência das expectativas, mas não seria surpresa se, para a próxima semana, a Autoridade Monetária reduza novamente a Selic em 0,25%, levando a taxa básica a 14% ao ano.

Roberto Simioni
Economista - Chefe
Troon Capital

Roberto Simioni Neto

Roberto Simioni Neto

Mestre em economia pela pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mais de 25 anos de experiência na área de investimentos on e offshore. Certificações CNPI, CEA, CPF. Economista-chefe na Blue3 Investimentos.

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