Herança de Odete Roitman: a morte também cobra imposto

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Herança de Odete Roitman: a morte também cobra imposto

11 out 2025Última atualização: 10 outubro 2025

João Cosme Souza e Silva PereiraJoão Cosme Souza e Silva Pereira

Odete Roitman não era apenas uma personagem, era uma sentença. Empresária da Transportadora Costa Atlântica, construiu fortuna, poder e inimigos na mesma proporção.

No remake de Vale Tudo (2025), interpretada por Débora Bloch, reaparece com a mesma elegância venenosa de 1988, convicta de que sua riqueza a tornava imune à miséria dos outros e à própria morte.

Era uma mulher que confundia autoridade com divindade e acreditava que um testamento poderia enganar o tempo. Mas o tempo tem advogados melhores. O Direito, indiferente à arrogância, trata todos do mesmo modo, com artigos, percentuais e imposto.

A morte de Odete reacendeu um tema sempre adiado nas famílias de poder: a sucessão. Sucessão empresarial, sucessão patrimonial e, sobretudo, sucessão emocional.

A fortuna estava organizada. Os afetos, não. O império sobreviveu juridicamente, mas morreu espiritualmente no mesmo instante em que o corpo da matriarca caiu.

“Dinheiro não é problema. Problema é gente.” - O cálculo frio da herança

A morte de Odete abre o inventário de uma vida vivida como empresa. Sem marido e sem ascendentes, sua sucessão segue o artigo 1.829 do Código Civil, que determina a partilha igual entre os filhos. O que a lei chama de filhos é, no caso dela, um inventário emocional.

  • Afonso Almeida Roitman, o filho presumido, treinado para obedecer e vencer.
  • Heleninha Almeida Roitman, a filha biológica, quebrada por dentro, um espelho que Odete nunca quis olhar.
  • Leonardo Roitman, o primogênito oculto, paraplégico, lembrança viva de que até o controle tem limite.

Três herdeiros, três feridas. Na matemática do espólio, cada um recebe dois bilhões de reais brutos. Na matemática da alma, cada um recebe o castigo que merece.

A sucessão pessoal reflete a profissional. Nenhum dos filhos tem preparo para gerir o conglomerado da mãe. A empresa, que dependia da centralização absoluta, agora precisa enfrentar o que ela mais temia: a autonomia dos herdeiros.

“Tudo tem um preço. Até o silêncio.” O imposto da eternidade

O primeiro herdeiro de Odete não é Afonso, nem Heleninha, nem Leonardo. É o Estado. O ITCMD, Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação, no Estado do Rio de Janeiro, aplica alíquotas progressivas que chegam a oito por cento para patrimônios acima de quatro milhões de reais, percentual ainda vigente antes da regulamentação definitiva da Reforma Tributária.

Somam-se três por cento de custas cartorárias e cinco por cento de honorários advocatícios. A fortuna de seis bilhões já nasce com novecentos e sessenta milhões a menos.

Tipo de custoPercentualValor total (R$)
ITCMD8%480.000.000
Custas cartorárias e judiciais3%180.000.000
Honorários advocatícios5%300.000.000
Total de custos16%960.000.000

O Estado recebe primeiro, o cartório em seguida e os advogados por último. Nenhum deles se atrasa. Odete, que sempre humilhou o povo, termina servindo de receita pública. De seis bilhões restam cinco bilhões e quarenta milhões líquidos. A eternidade custa caro.

Nota: Embora a Reforma Tributária (Emenda Constitucional nº 132/2023) preveja a uniformização nacional e progressiva do ITCMD, suas novas regras dependem de lei complementar ainda não sancionada. Assim, permanecem válidas as legislações estaduais vigentes, como a Lei nº 7.174/2015 do Estado do Rio de Janeiro.

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“A morte é para os fracos. Eu ainda tenho muito o que mandar fazer.” O testamento como continuação do poder

Nem morta Odete aceita calar. Seu testamento é uma peça de ficção jurídica. Trinta por cento da fortuna, um bilhão e quinhentos e doze milhões de reais, são destinados à Fundação Roitman, criada para preservar a cultura da excelência. Preservar o próprio nome, na verdade.

É a tentativa de transformar o medo em legado e o ego em entidade filantrópica.

BeneficiárioPercentualValor líquido (R$)
Fundação Roitman30%1.512.000.000
Afonso Roitman26,7%1.346.000.000
Heleninha Roitman21,7%1.094.000.000
Leonardo Roitman21,7%1.094.000.000
Total100%5.040.000.000

Entre os anexos do testamento, há um contrato de união estável arquivado em sigilo. O companheiro, sem direito à legítima, busca reconhecimento judicial para herdar parte do espólio.

Em vida, Odete o chamava de “sócio emocional”. No tribunal, ele virou réu de si mesmo.

“Vocês acham que luxo é ter dinheiro. Luxo é ser obedecido.” O patrimônio como espetáculo

O inventário revela também o que ela jamais chamaria de exagero. Entre as curiosidades, consta o direito de uso vitalício de uma suíte permanente no Copacabana Palace. Não era um imóvel, era um símbolo. Odete não morava lá, exibia-se lá. Para ela, o endereço valia mais do que o lar.

Rumores indicam que o patrimônio total, somando participações internacionais, alcançava seis bilhões de reais. Aplicado em CDB a 100% do CDI, renderia cerca de cinquenta milhões por mês. Na poupança, pouco mais de trinta milhões. Odete jamais deixaria o dinheiro parado. Sua fortuna não dormia. Rendia enquanto os outros descansavam.

Parte desse capital estava fora do país, em contas nas Ilhas Cayman e fundos em Luxemburgo. Viajava como quem fiscaliza o próprio dinheiro. A morte, porém, revelou a dificuldade de repatriar os recursos. Nem toda riqueza atravessa a alfândega da eternidade.

“Eu não deixo herança. Eu deixo instruções.” O inventário moral

A sucessão financeira é o espetáculo, mas a moral é o escândalo. Afonso herda a frieza, Heleninha herda a culpa e Leonardo herda o esquecimento. Nenhum dos três quer o dinheiro. Todos desejam uma resposta que não existe: o que fazer com o vazio depois que a fortuna chega.

Seis bilhões de reais não compram uma mãe. E o inventário mais caro da teledramaturgia brasileira não é o dos bens, mas o das emoções falidas. Odete deixou instruções, não amor. E o testamento, como tudo o que ela fez, não reparte, separa.

“Vocês vão sentir minha falta. Não de mim, mas do medo que eu causava.” O veredito final

Odete Roitman morre bilionária, mas sozinha. O Estado fica com oito por cento, o cartório com três, os advogados com cinco, e o resto se desfaz entre ressentimentos.

Deus, se a recebeu, recebeu com balanço patrimonial. O império de mármore vira poeira de certidões. A mulher que acreditou mandar na vida descobre que ninguém manda na morte.

A morte de Odete não foi o tiro. Foi o inventário. O último imposto pago à própria arrogância.

João Cosme Souza e Silva Pereira

João Cosme Souza e Silva Pereira

Sócio da Blue3 Investimentos e Especialista em Proteção Financeira e Planejamento Sucessório.

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