Juros devem continuar altos por mais tempo, dizem especialistas da Blue3
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Juros devem continuar altos por mais tempo, dizem especialistas da Blue3
20 jun 2025•Última atualização: 10 setembro 2025

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que elevou a taxa Selic de 14,75% para 15% ao ano, gerou forte repercussão no mercado financeiro. Segundo análise da Blue3 Investimentos, o movimento surpreendeu boa parte dos agentes econômicos e acendeu um alerta sobre o risco de uma inflação persistentemente acima da meta.
“O Banco Central sinaliza claramente que está disposto a conviver com uma inflação acima da meta, ao invés de promover uma verdadeira convergência”, afirma Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3. Para ele, a decisão reflete “um flerte com a heterodoxia, promovido por uma diretoria que convive melhor com uma inflação média maior”.
Análise: choque no mercado e cenário mais duro
Bruna Centeno, economista, sócia e advisor na Blue3, destaca que a decisão contrariou as expectativas da maioria dos analistas. “A maior parte do mercado esperava manutenção da Selic. Até o início da semana, 62% projetavam estabilidade, enquanto apenas 38% acreditavam em uma alta de 0,25 ponto percentual”, explica.
Ela também ressalta que o ambiente externo contribuiu para endurecer a postura do Banco Central. “O conflito no Oriente Médio, especialmente entre Israel e Irã, pressionou a matriz energética global. Isso traz riscos inflacionários, especialmente via petróleo, exigindo uma dose maior de juros para compensar essa volatilidade”, alerta Centeno.
Inflação segue desancorada, alerta Simioni
Para Simioni, o problema central continua sendo a dificuldade de ancorar as expectativas de inflação. “Com um IPCA de 5,32% e uma Selic a 15%, não convergimos para a meta de 3% no horizonte relevante de seis trimestres. Isso revela que sequer conseguimos acomodar a inflação de forma estrutural”, afirma.
Ele ainda reforça: “O BC abandonou aquele ‘firme propósito’ de combater a inflação — característica da era Ilan-Campos — e substituiu por um simples ‘objetivo’, como ficou evidente na última ata e no comunicado pós-reunião”.
Fiscal frágil pressiona ainda mais
Na avaliação de Centeno, o quadro fiscal brasileiro foi determinante para a decisão. “Tivemos uma sequência de eventos que elevaram a percepção de risco, como as discussões sobre o IOF e a tributação dos fundos exclusivos, além da reação negativa do mercado. Isso colocou o fiscal no centro das preocupações do Copom”, explica.
Mesmo a inflação de maio, que veio abaixo das expectativas, não foi suficiente para aliviar a pressão. “Fechamos o quarto mês consecutivo com inflação acima de 5%. Isso reforça o tom mais duro adotado pelo Copom”, completa.
Selic em 15% pode não ser o fim do ciclo
Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital, avalia que, embora o Banco Central tenha sinalizado uma possível interrupção do ciclo de alta, isso não representa necessariamente o fim dos ajustes. “O BC deixou claro que, para que a inflação convirja à meta, os juros devem ser mantidos nesse patamar por um período bastante prolongado”, afirma.
Segundo ele, o comunicado também retirou a menção à desaceleração econômica global, o que era visto anteriormente como um fator que poderia justificar uma postura mais branda.
Economia sob risco: aperto prolongado à vista
Na visão de Fabricio Echeverria, CEO da Oby Capital, o Banco Central reconhece que a inflação, tanto nas métricas observadas quanto nas expectativas, segue elevada. “A projeção de inflação para 2026 é de 3,6%, acima do centro da meta de 3%. Já para 2025 e 2026, as expectativas estão em 5,52% e 4,50%, respectivamente. Isso obriga o BC a manter uma política monetária significativamente contracionista”, analisa.
Echeverria também destaca o peso do cenário internacional. “O Copom menciona a elevada incerteza global, seja pela política fiscal dos EUA, pelas tensões geopolíticas ou pelos choques no comércio internacional. Isso tudo gera volatilidade, especialmente nos mercados emergentes, como o Brasil”, completa.
O que esperar daqui pra frente
Apesar do ajuste, o Copom deixou em aberto os próximos passos. Para Echeverria, o Comitê adotou uma postura mais “data dependent”, ou seja, observará os impactos defasados da política monetária antes de decidir sobre novos ajustes.
Simioni, por outro lado, alerta que “mesmo mantendo os juros estáveis, a desancoragem das expectativas para 2025 permanece, dado que a política fiscal continua sendo expansiva”.

Redação It's Money
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