Análises Palavra do Analista

A repercussão do caso das Americanas no mercado de crédito

A repercussão do caso das Americanas no mercado de crédito
  • Publicado em 1 de março de 2023

Em um momento complexo da economia brasileira, as varejistas já estavam com uma lupa em cima de seus demonstrativos financeiros, com muitos analistas acreditando que se houvesse alguma catástrofe, ela viria da forma dos mesmos vilões de sempre para o setor: os juros elevados e o arrefecimento no consumo.

Porém, o que acontece quando essa catástrofe vem de onde o mercado não espera?

Pior, quais os efeitos quando se perde a confiança em instituições que deveriam resguardar os interesses dos investidores?

O repentino pedido de recuperação judicial por parte das Americanas, após a descoberta de inconsistências contábeis, traz holofotes não apenas para o mercado acionário, cuja repercussão fora uma imediata queda de mais de 80% das ações da empresa, concomitantemente, no mercado de crédito, as principais debêntures das Americanas negociavam com desconto superior em relação ao seu valor na curva, precificando o óbvio não pagamento aos debenturistas.

O que podemos esperar do mercado de crédito é que possivelmente teremos prêmio a mais em função do “risco Americanas”. Prêmio, apesar de remeter a algo positivo, no contexto do mercado pode-se entender como uma remuneração maior (taxa mais elevada), que propriamente encarece mais o crédito para o tomador.

Isso ocorre porque as Americanas não eram uma loja qualquer, mas uma empresa até então longeva e com rating de crédito atribuído pelas principais agências de risco (aquelas que erraram em 2008) AAA, o mais alto grau em uma escala nacional.  Pesa também nesse fator as empresas de auditoria, que em tese seriam uma barreira para evitar que esse tipo de situação ocorresse.

Sempre que temos uma situação de quebra de confiança, algo vital ao mercado, invariavelmente os investidores assumem uma postura defensiva e começam a pedir maiores garantias na tomada de crédito das empresas, ou um maior retorno, já que a percepção de risco também aumenta.

Ora, se uma empresa do porte das Americanas (Ou Enron, nos EUA anos 2000) cometeu um ato desses, que dirá de empresas de menor porte?

Em um mercado menos desenvolvido em alguns quesitos de governança, como o nosso, temos enxergado o mercado de crédito ficando mais restrito, prejudicando boas empresas no meio do percurso. A liquidez no mercado brasileiro, que não é tão elevada, naturalmente já afasta grandes investidores, quando não se mostra confiável, tende a afastar ainda mais.

Não precisamos aqui ter uma síndrome de vira-lata. Em outros mercados tidos como consolidados ocorreram casos parecidos com proporções até maiores, porém o que vimos de repercussão nestes casos é o aprimoramento de transparência e punições aos envolvidos com acionistas entrando em ações coletivas contra essas empresas e tendo um grau razoável de sucesso, mostrando bom funcionamento das instituições e segurança jurídica.

Ou seja, se cumprirmos esse dever de casa (lembrando que o Brasil, para o exterior, não é um aluno exemplar) podemos mostrar uma página virada que traga mais segurança aos investidores, caso contrário, um efeito incialmente de 40 bi vai afetando toda uma cadeia em repercussões por vezes fora do óbvio, encarecendo-a.

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DVinvest

A DVinvest é a casa de análise fundada pelo renomado analista Dalton Vieira, que possui em sua equipe profissionais altamente especializados em análise fundamentalista e técnica de ações.