FOMC e Copom: inflação define rumo dos juros nos EUA e Brasil
coluna-especialistas
FOMC e Copom: inflação define rumo dos juros nos EUA e Brasil
14 set 2026•Última atualização: 14 setembro 2026

Esta semana houve a divulgação de dados importantes de inflação nos Estados Unidos e no Brasil, que podem nortear as ações de política monetária desses bancos centrais.
Na América, os dados de inflação indicaram aceleração em Agosto/26, com o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) subindo 0,4% no mês e mantendo a taxa anual em 3,4%, enquanto o Índice de Preços ao Produtor (PPI) avançou 0,4% mensal e 5,4% anual, no maior ritmo em 2026, o que inicialmente reforça o entendimento do mercado, à partir das pressões de custos identificados na cadeia produtiva, que poderia haver um aumento de juros pelo FOMC na próxima semana, em mais 0,25%, retornando os juros para a faixa de 3,75%-4%
CPI e PPI nos Estados Unidos
Analisando em mais detalhes a inflação do lado do consumidor, o CPI registrou alta de 0,4% em agosto na comparação mensal, após apenas 0,1% em julho, mantendo a inflação anual em 3,4%, bem acima da meta de 2% do Fed. O CPI Core (ex-alimentos e energia) subiu 0,3% no mês e recuou na base anual para 2,4%, sugerindo que a pressão de preços permanece, ainda que em trajetória de lenta convergência à meta.
Como esperado, a gasolina foi o principal motor da aceleração mensal, respondendo por mais de 30% do avanço, mas itens sensíveis como aluguel e alguns serviços continuaram a contribuir de forma persistente. No atacado, o Índice de Preços ao Produtor (PPI) subiu 0,4% em agosto/26, a taxa anual saltou para 5,4%, a mais elevada de 2026, indicando que os custos “a montante” seguem pressionando a economia.
O core PPI (excluindo alimentos e energia) avançou 0,2% no mês e 4,6% no ano, enquanto uma medida ainda mais filtrada (excluindo serviços de comércio) subiu 0,3% no mês e 4,7% no ano, sinalizando que há força em componentes de serviços e custos intermediários.
Entre os destaques, o diesel disparou 24,1% no mês, e houve aumentos relevantes em tarifas aéreas e serviços hospitalares, ampliando o risco de repasse aos preços finais.
Inflação e política monetária nos Estados Unidos
Alguns aspectos chamam a atenção para a política monetária. A combinação de CPI mensal mais forte (0,4%) com core CPI em 0,3%, sugere que a “última milha” da desinflação segue difícil, especialmente em serviços e moradia, onde a inércia é maior.
O PPI anual em 5,4% e o core PPI em 4,6% indicam que os custos de produção continuam elevados e historicamente choques de custos no atacado quando persistentes, tendem a se transmitir ao menos parcialmente, aos preços ao consumidor nos meses seguintes. Isso não é automático, depende de margens, produtividade e expectativas, mas eleva o risco de pressões de “segunda rodada”, sobretudo se o mercado de trabalho seguir resiliente e a demanda interna não arrefecer o suficiente.
ISM de manufatura e serviços
Considerando na análise não apenas os dados de inflação, mas também os dados do ISM de manufatura em agosto/26, observa-se que houve um recuou de 55,6 em julho/26 para 54,6, ainda permanecendo em terreno de expansão pelo oitavo mês consecutivo, apresentando um cenário de crescimento industrial resiliente, ainda que em ritmo um pouco menos vigoroso.
Mais importante para a inflação, o subíndice de preços pagos na manufatura manteve-se em 71,1, um nível consistentemente associado a pressões de custos acima da meta de 2%, refletindo aumentos persistentes em energia, mão de obra e metais impactados por tarifas, como aço e alumínio. E, mesmo com nova ordem e produção mostrando alguma moderação, o “termômetro” de custos na fábrica continua quente, alimentando o canal de repasse que depois aparece no PPI e, com defasagem, no CPI de bens. No setor de serviços, a leitura é ainda mais relevante para a trajetória da inflação americana.
O ISM de serviços subiu para 55,4 em agosto/26, ante 54,1 em julho/26, superando expectativas e marcando o 26º mês seguido de expansão, com nova ordem saltando para 60,9 e atividade de negócios em 61,7, sinais de demanda interna robusta.
Crucial para o FOMC, o índice de preços pagos em serviços atingiu 72,6, o maior desde agosto de 2022 e a quinta vez em seis meses acima de 70, com média móvel de 12 meses em 68,5, o nível mais alto desde abril de 2023. Essa combinação demanda forte e preços pagos em patamar elevado é exatamente o tipo de ambiente que sustenta a inflação de serviços, componente de grande peso no CPI e no PCE, e que tende a apresentar maior inércia.
Inflação de serviços e processo de desinflação
A conexão entre os dados recentes e os indicadores de inflação desta semana é nítida, o PPI de serviços, ao capturar os preços no atacado do setor terciário, permanece resistente, enquanto o CPI de serviços, em especialmente em seus componentes mais sensíveis à demanda interna e aos custos de mão de obra, contribuiu para manter o CPI-Core em 0,3% no mês.
Do ponto de vista da transmissão, o índice de preços pagos do ISM de serviços funciona como um indicador antecedente e quando permanece acima de 70 por vários meses, como ocorreu recentemente, tende (com alguma defasagem), a indicar pressão (persistente) sob o a inflação de serviços, prejudicando a “última milha” do processo de convergência da inflação para a meta de 2%.
Energia e pressões sobre a inflação
No caso da energia, o salto do diesel e o petróleo acima de US$ 100/barril (Brent) é um vetor que reforça a pressão direta (gasolina no CPI) e indireta (custos logísticos e de produção no PPI), criando um ambiente em que a inflação pode se mostrar mais sensível a choques externos do que o desejável para um ciclo de afrouxamento.
Nesse contexto, os indicadores de atividade não são apenas “termômetros” de crescimento; são peças centrais da equação inflacionária, pois determinam o grau de folga na economia e, portanto, a capacidade das firmas de repassar aumentos de custos sem perder demanda.
O que esperar da reunião do FOMC
Com a reunião do FOMC marcada para 15–16 de setembro, os dados de agosto inclinam a balança para um aperto, ou ao menos para uma postura mais restritiva na comunicação. Antes do CPI, o mercado já precificava cerca de 60% de chance de alta de 0,25%, impulsionado por um relatório de emprego de agosto mais forte (162 mil vagas) e por sinais de que a inflação não havia melhorado de forma convincente.
Após a indicação do CPI-core mensal em 0,3% e a leitura de que componentes relevantes para o PCE (a medida de inflação preferida do Fed) vieram firmes, a probabilidade implícita de aumento dos juros subiu para 70–73%, pelos indicadores de mercado.
Os indicadores de atividade reforçam essa sensibilidade. Um ISM de serviços em 55,4, com preços pagos em 72,6, envia um sinal de que a demanda interna segue aquecida e que as pressões de custos no setor que mais pesa no PIB e no CPI estão longe de se dissipar.
Para um comitê que busca evitar a desancoragem de expectativas, essa é uma configuração que reduz o espaço para “esperar para ver” e aumenta o atrativo de um movimento preventivo de aperto, ainda que modesto.
Cenários para os juros nos Estados Unidos
Em termos de função de reação, o canal de dados do CPI e PPI acima do esperado no mensal, somados a um ISM de serviços robusto e com preços pagos elevados, aumentam a probabilidade de que o PCE de agosto (a ser divulgado mais à frente) também venha firme, reduzindo a margem para pausa.
O canal de credibilidade, com a inflação anual em 3,4% e o núcleo do consumidor ainda em 2,4%, um FOMC que busca ancorar expectativas pode julgar necessário sinalizar, via alta de juros sinalizando que não tolerará estagnação da desinflação na “última milha”, especialmente quando a atividade aponta para pouco slack na economia.
A dúvida que persiste é se um único aumento de 0,25% resolve, pois o mercado espera que quando a autoridade monetária inicia um movimento, este ocorra de forma gradual, continua e por um periodo mais longo do que um único ajuste. E neste caso, talvez K. Warsh espere para iniciar esse movimento mais para o final do ano (não na próxima semana). Diante disso é possível estabelecer diferentes cenários e riscos para a trajetória de política e que seguem:
• Cenário base: Cenário de espera (hold com viés de aperto): caso haja sinais de que o choque de energia é temporário e que o núcleo de serviços começa a ceder mais rápido, o Comitê pode segurar a taxa, mas manter o viés restritivo no comunicado e nas projeções, dado o nível ainda elevado dos índices de preços pagos no ISM;
• Cenário de aperto moderado: alta de 0,25% (setembro), e uma mínima sinalização enfatizando dependência de dados e disposição a agir novamente se a inflação de serviços e o repasse de custos persistirem, cenário compatível com ISM de serviços forte e preços pagos elevados;
• Riscos de alta para os juros: nova onda de choques de oferta (energia, fretes, tensões geopolíticas) e/ou salários acima do consistente com 2%, em um contexto de demanda resiliente, podem exigir mais restrição por mais tempo.
A leitura conjunta de CPI, PPI e indicadores de atividade de agosto aponta para uma inflação que não colabora para um ciclo de afrouxamento imediato, o consumidor vê preços subindo mais forte no mês, o produtor registra custos anuais no topo do ano, e o núcleo da inflação segue acima do confortável para quem almeja 2%, tudo isso em um ambiente de demanda interna resiliente, especialmente em serviços, leva a economia americana par um caminho longo de ajuste, paciência e, possivelmente, mais restrição.
IPCA e expectativas para o Copom
Já no Brasil, os dados de Agosto, da inflação (IPCA) , registrou sua primeira deflação mensal em 12 meses, o que levou o índice a recuar 0,32%, puxado principalmente por um alívio temporário na conta de luz e por quedas nos preços dos alimentos.
Em termos de 12 meses, a inflação desacelerou de 4,44% para 4,22%, (uma desaceleração de 22 pontos-base que confirma a tendência de moderação inflacionária) uma resposta consistente ao ciclo de aperto monetário em curso. O quadro reforça a probabilidade de um novo corte da Selic na reunião do Copom da próxima semana, embora a autoridade monetária deva ponderar o caráter transitório de parte da queda observada.
O que explica a queda da inflação no Brasil
Três grupos de despesas foram os principais responsáveis pela queda: Habitação (-1,87%), Transportes (-0,86%) e Alimentação (-0,34%). Entretanto, analisando por dentro os fatores que levaram a queda cada um dos setores, o maior destaque (como esperado) ficou em Habitação, com recuo da tarifa de energia elétrica residencial em 7,63%, influenciada pelo crédito temporário do Bônus de Itaipu nas faturas de agosto/26 (fator de natureza administrativa e não recorrente).
Em Alimentação, pelo segundo mês seguido houve queda, com alimentação no domicílio recuando 0,61% e alimentos in natura contribuindo para o alívio nos preços ao consumidor. Nos Transportes, os combustíveis caíram 0,91%, com etanol recuando 3,95% e gasolina 0,59%, refletindo tanto movimentos nos preços internacionais do petróleo quanto ajustes domésticos.
Inflação e atividade econômica no Brasil
Do ponto de vista qualitativo, o resultado de agosto combina elementos distintos. Há componentes de natureza transitória (o bônus de Itaipu), que reduz artificialmente a conta de luz em agosto e tende a ser revertido nos meses seguintes. Esse tipo de choque administrativo gera volatilidade de curto prazo, mas não altera a trajetória estrutural da inflação.
Há também sinais mais persistentes de desaceleração, como a queda dos preços dos alimentos, a moderação nos combustíveis e a trajetória descendente do IPCA de 12 meses sugerem que o ciclo de aperto monetário está surtindo efeito sobre a demanda e as expectativas.
A inflação de serviços, componente mais sensível ao ciclo doméstico e ao mercado de trabalho, ainda exige acompanhamento, ainda que muitos defendam uma ambiente de menor pressão inflacionária. Nesse caso em específico, é preciso ir além dos numeros e preços ao consumidor, para examinar como a atividade econômica está moldando as pressões de demanda e oferta na economia brasileira.
A relação entre crescimento, emprego, capacidade ociosa e inflação (a curva de Phillips) continua sendo um dos pilares da transmissão da política monetária, ainda que sua inclinação tenha se achatado nas últimas décadas em função de mudanças estruturais nos mercados de trabalho e na formação de expectativas.
Os dados mais recentes de atividade apontam para uma economia em desaceleração gradual, mas ainda resiliente. O PIB do 2Q cresceu 0,5% em relação ao 1Q e 2,0% na comparação anual, com a composição do crescimento revelando fragilidades. O consumo das famílias recuou 0,4% no trimestre, enquanto a agricultura e a demanda externa sustentaram parte do avanço.
Esse padrão sugere que o ciclo de aperto monetário, mesmo após 4 cortes consecutivos da Selic desde março, que totalizaram 1%, freou o consumo interno, mas ainda encontra apoio em setores menos sensíveis às taxas de juros, como o agronegócio e as exportações de commodities.
Mercado de trabalho e inflação
O mercado de trabalho, por sua vez, apresenta um quadro aparentemente contraditório, a taxa de desemprego caiu para 5,3% no trimestre encerrado em julho/26, no menor nível da série histórica, com 103,3 milhões de pessoas ocupadas.
A princípio, um mercado de trabalho tão apertado deveria gerar pressões salariais e, por via de custos, inflacionárias. No entanto, há fatores que estão atenuando essa transmissão. A produtividade do trabalho tem crescido de forma modesta, limitando o poder de negociação dos trabalhadores mesmo em um ambiente de pleno emprego.
Soma-se a isso, as expectativas de inflação, que ainda permanece relativamente ancoradas, em parte devido à credibilidade acumulada pelo regime de metas de inflação e à comunicação clara do Banco Central.
Indústria de transformação e inflação
A indústria de transformação, contudo, mostra sinais de fraqueza mais pronunciada. O PMI manufatureiro recuou para 46,3 em agosto, após 47,5 em julho, indicando contração pela segunda vez no ano e refletindo tanto a demanda interna mais fraca quanto a apreciação do câmbio em certos períodos, que reduz a competitividade das exportações industriais.
Essa desaceleração industrial tende a aliviar pressões de custos ao longo da cadeia produtiva, especialmente em setores intensivos em energia e insumos importados, contribuindo indiretamente para a moderação do IPCA de bens industriais.
Consumo das famílias e política monetária
O consumo das famílias, componente-chave para a inflação de serviços e alimentos processados, também dá sinais de arrefecimento.
A queda de 0,4% no consumo no 2Q, combinada com a trajetória de renda real ainda positiva mas em ritmo mais lento, sugere que o repasse da política monetária para a demanda agregada está em curso, embora com defasagens típicas de seis a doze meses.
Esse arrefecimento da demanda ajuda a explicar, em parte, a queda consecutiva nos preços dos alimentos e a moderação nos serviços, mesmo com o mercado de trabalho formalmente aquecido. A desaceleração do consumo, a contração incipiente na indústria e a moderação da inflação de bens sugerem que o hiato do produto, a diferença entre o PIB efetivo e o potencial, está se tornando menos positivo ou até ligeiramente negativo, reduzindo as pressões de demanda sobre os preços.
Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho extremamente apertado impõe um limite à velocidade dos cortes, pois salários e renda ainda sustentam o consumo de serviços, componente mais persistente da inflação.
O que esperar da reunião do Copom
Do lado da oferta, a capacidade ociosa na indústria e a desaceleração do crédito às famílias criam um ambiente menos propício a repasses de custos para preços finais.
As empresas, enfrentando demanda mais fraca e concorrência acirrada, tendem a comprimir margens em vez de repassar integralmente aumentos de custos, um comportamento que reduz a persistência inflacionária e facilita o trabalho do BCB.
O Comitê de Política Monetária se reúne na próxima semana (15–16 de setembro) em um contexto de inflação em trajetória de queda, mas ainda acima da meta de 3% (com teto da banda em 4,5%). O mercado precifica, com cerca de 95% de probabilidade, um corte de 0,25% na Selic, levando a taxa para 13,75% ao ano. Dois argumentos sustentam essa expectativa.
A desaceleração do IPCA de 12 meses para 4,22% aproxima a inflação da banda superior da meta, reduzindo o prêmio de risco inflacionário e permitindo algum espaço para afrouxamento gradual. E o cenário externo, com o Federal Reserve dos EUA também reunindo na mesma semana, pode abrir espaço para um movimento coordenado de normalização monetária em economias emergentes, desde que as expectativas de inflação permaneçam ancoradas.
No entanto, o Copom deve manter um tom cauteloso. A queda de agosto/26 foi amplificada por fatores temporários (Itaipu) e por movimentos em commodities (petróleo, alimentos) que podem se reverter. Além disso, a inflação de 12 meses ainda está acima do centro da meta, e o Comitê tende a priorizar a convergência plena e sustentável ao target.
Selic e cenário para o restante de 2026
O IPCA de agosto/26, oferece ao Copom um argumento adicional para um corte modesto e gradual da Selic, desde que acompanhado de comunicação clara sobre o caráter condicional e dependente de dados (data-dependent) da trajetória futura da política monetária.
A economia brasileira caminha para um equilíbrio de menor crescimento e inflação em queda, mas o BCB deve navegar com prudência entre os riscos de aperto excessivo, que poderia aprofundar a desaceleração e de afrouxamento prematuro que poderia desarraigar expectativas e reacender pressões inflacionárias.
A leitura conjunta dos dados de inflação e atividade econômica pode indicar que ainda haverá um último corte de juros de mais 0,25% para a próxima reunião, possívelmente encerrando o ciclo em 13,50%. Para o restante de 2026, as projeções do mercado indicam inflação em torno de 5,00% e os principais riscos à trajetória incluem:
(i) reversão do efeito Itaipu e pressão sobre tarifas de energia nos próximos meses;
(ii) volatilidade nos preços internacionais de commodities, especialmente petróleo e alimentos;
(iii) dinâmica do câmbio, que pode transmitir pressões de custos aos preços domésticos; e
(iv) uma possível resistência maior do mercado de trabalho à desaceleração, mantendo o consumo de serviços mais aquecido do que o esperado.

Roberto Simioni Neto
Mestre em economia pela pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mais de 25 anos de experiência na área de investimentos on e offshore. Certificações CNPI, CEA, CPF. Economista-chefe na Blue3 Investimentos.
Saber mais



