Copom mantém Selic em 13,75%: riscos para a inflação e perspectivas para 2027

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Copom mantém Selic em 13,75%: riscos para a inflação e perspectivas para 2027

6 nov 2026•Última atualização: 6 novembro 2026

Roberto Simioni NetoRoberto Simioni Neto
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A condução da política monetária é um exercício de administração de expectativas sob incerteza.

Quando a inflação observada sobe ao mesmo tempo em que a economia já apresenta sinais de moderação, o banco central enfrenta o desafio de manter a restrição por mais tempo pode aprofundar desnecessariamente a desaceleração; relaxar cedo demais pode permitir que choques temporários se transformem em pressões persistentes sobre preços, salários e contratos.

Ao preservar a Selic em 13,75%, o Comitê comunicou que optou por manter o grau de restrição até que exista evidência mais robusta de que a desinflação retomou uma trajetória consistente.

O próprio comunicado descreve a taxa como compatível com a convergência da inflação para o entorno da meta no horizonte relevante da política monetária.

A linguagem importa: a manutenção não é uma mudança de estratégia, mas uma interrupção para reavaliar o balanço de riscos e a decisão do Comitê de Política Monetária de manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, após cinco reduções consecutivas, não deve ser interpretada como o fim do ciclo de flexibilização monetária.

Trata-se, de uma pausa deliberada pois o Copom reconhece que a atividade econômica desacelera e que o mercado de trabalho perde dinamismo, mas concluiu que a inflação corrente acelerou, que as expectativas para 2026 e 2027 se afastaram adicionalmente da meta e que o ambiente externo passou a ser mais adverso.

O que mudou entre as reuniões do Copom de setembro e novembro de 2026?

A principal alteração entre os comunicados das 281ª e 282ª reuniões está na natureza dos riscos.

Em setembro/26 o ambiente externo era descrito como incerto e em novembro/26 passou a ser caracterizado como mais adverso pois o prolongamento dos conflitos no Oriente Médio pressionou petróleo e derivados, enquanto condições financeiras mais restritivas nas economias avançadas adicionaram volatilidade ao cenário global.

E, no plano doméstico, a depreciação cambial reforçou o risco de repasse aos preços livres e administrados.

Choques de oferta e riscos para a inflação

Esses choques têm uma característica particularmente incômoda para um banco central, pois são em sua origem, choques de oferta.

Eles reduzem temporariamente o produto potencial efetivo da economia e elevam preços mesmo quando a demanda não está excessivamente aquecida.

Haveria, em tese, espaço para “olhar através” desse tipo de choque, mas essa opção torna-se perigosa quando o choque contamina expectativas, negociações salariais, precificação das empresas e preços administrados e foi exatamente esse risco de segunda rodada que o Copom passou a enfatizar com maior ênfase.

Expectativas de inflação para 2026 e 2027 preocupam o Banco Central

O elemento mais relevante da mudança de postura não está na inflação corrente, mas na deterioração das projeções de médio prazo.

Quando as expectativas de mercado para o IPCA em 2026 e 2027 sobem e se afastam da meta, especialmente nos horizontes mais longos, a autoridade monetária precisa ponderar se a economia ainda possui folga suficiente para acomodar novos estímulos via juros menores.

Para um banco central, esse deslocamento é mais preocupante do que um choque isolado de preços.

Expectativas são o canal pelo qual a política monetária se torna eficaz.

Se famílias, empresas e trabalhadores passam a acreditar que a inflação permanecerá acima da meta, essa crença tende a se refletir em contratos, reajustes, precificação e negociações salariais.

Nesse ponto, o problema deixa de ser apenas o choque inicial e passa a envolver o risco de segunda rodada.

Quais indicadores o Copom deverá acompanhar nas próximas reuniões?

Para as próximas reuniões, a questão central não será simplesmente cortar ou não cortar.

Será definir sob quais condições a Selic poderá voltar a declinar de forma crível.

O Comitê deverá acompanhar:

I. A inflação e, em especial, a inflação de serviços;

II. O comportamento das expectativas de inflação;

III. A trajetória cambial e o repasse aos preços;

IV. Os preços de commodities, incluindo energia e alimentos;

V. A evolução do mercado de trabalho;

VI. A consistência da política fiscal.

Política fiscal, câmbio e novos riscos para os juros no Brasil

Fatores como impactos climáticos sobre a oferta de grãos, o custo da energia a partir do acionamento de termelétricas, o preço do diesel, subsídios e eventuais mudanças tributárias podem introduzir novos choques de custo.

Se esses fatores se somarem a expectativas já desancoradas, a assimetria de riscos permanecerá voltada para cima.

Nesse cenário, aumenta a probabilidade de que a autoridade monetária precise não apenas interromper cortes, mas considerar um novo aperto.

Como a política fiscal influencia a taxa Selic?

A política fiscal aparece nas duas atas menos como uma variável orçamentária isolada e mais como um fator que condiciona a eficácia da política monetária.

Se estímulos públicos elevarem a demanda agregada além da capacidade produtiva da economia, parte do esforço restritivo da Selic será neutralizado, obrigando o banco central a manter os juros mais altos por mais tempo para compensar uma política fiscal mais expansionista.

O canal cambial reforça essa interação.

A combinação de folga fiscal percebida, incerteza política e ambiente externo adverso pode sustentar uma moeda depreciada por mais tempo, ampliando o repasse aos preços e dificultando a convergência inflacionária.

Nesse sentido, credibilidade fiscal não é uma preocupação paralela à política monetária: é parte das condições sob as quais ela opera.

Autonomia do Banco Central e os riscos de interferência na política monetária

Há ainda um risco de percepção associado à composição futura da direção da autoridade monetária.

Se o mercado passar a acreditar que o Executivo buscará reduzir artificialmente a taxa básica, seja por meio de metas explícitas para a Selic, seja pela escolha de nomes mais dispostos a votar nas reuniões a favor de cortes (por orientação política e não técnica), a curva longa de juros tende a se elevar.

Investidores passariam a exigir maior compensação pelo risco de inflação persistente.

A questão não é um mistério, pois a pressão por juros menores pode produzir juros longos mais altos, câmbio mais depreciado, expectativas piores e crédito mais caro.

A intenção de derrubar rapidamente o custo do dinheiro pode, portanto, produzir o efeito oposto ao desejado, encarecendo o financiamento da economia e complicando o rolamento da dívida pública.

E é legítimo que o novo governo a partir de janeiro de 2027, indique diretores do Banco Central dentro das regras institucionais e defenda uma visão sobre o custo do crédito e o impacto dos juros sobre o crescimento.

O problema surge quando a escolha de nomes passa a ser orientada menos pela competência técnica e pela adesão ao regime de metas de inflação e mais pela disposição de acelerar cortes independentemente das condições macroeconômicas.

A defesa da autonomia não significa ignorar crescimento, emprego ou custo da dívida; significa reconhecer que a melhor forma de reduzir juros de maneira duradoura é restaurar a confiança de que a inflação convergirá à meta.

Reforma tributária: impactos econômicos e riscos para a inflação

Entretanto há outras condições que também merece um olhar mais atento.

A reforma da tributação sobre o consumo representa uma das mais importantes transformações institucionais das últimas décadas.

A substituição de tributos cumulativos por um modelo mais próximo de um imposto sobre valor agregado tem potencial para reduzir distorções, melhorar a recuperação de créditos, aumentar a transparência e favorecer a produtividade no médio prazo.

Contudo, esses benefícios não são automáticos.

A transição para a nova sistemática ainda enfrenta indefinições operacionais relevantes: regulamentação definitiva, documentos fiscais, sistemas de emissão, apuração assistida e mecanismos de compensação de créditos.

A proposta de alíquota de referência da CBS em 11,3%, calculada pelo órgão de controle externo e ainda sujeita a deliberação, ficou acima de estimativas iniciais do setor produtivo e reacendeu o debate sobre carga tributária efetiva.

Custos de transição e efeitos sobre as empresas

Do ponto de vista macroeconômico, o risco não é necessariamente um choque inflacionário permanente, mas um custo de transição.

Dificuldades na utilização de créditos, aumento de custos administrativos e incerteza regulatória podem comprimir margens ou ser repassadas aos preços, dependendo da concorrência, da elasticidade da demanda e da estrutura de cada setor.

Para pequenas e médias empresas, o efeito pode ser desproporcional, dado a menor capacidade de absorver mudanças simultâneas em sistemas, contratos e fluxos de caixa.

O desafio não é escolher entre implementar rapidamente ou adiar indefinidamente e sim, é o de assegurar previsibilidade, segurança jurídica e capacidade operacional.

Um calendário rígido sem preparo adequado pode transformar uma reforma concebida para simplificar o ambiente de negócios em fonte adicional de incerteza; um adiamento indiscriminado prolongaria distorções que há décadas prejudicam a produtividade.

Selic pode voltar a subir em 2027?

Além disso, caso a desancoragem das “expectativas” persista e os choques de oferta se transfiram com maior intensidade para preços livres, serviços e expectativas, poderá haver espaço para um aumento de juros entre o 2Q e o 3Q2027 na ordem de até 1,5% e isso levaria a taxa básica de volta a patamares próximos de 15,5% ao ano.

Não se trata de uma previsão determinística, mas de um cenário condicional que depende da inflação de serviços, do câmbio, da condução fiscal, da composição da equipe econômica e da capacidade do regime de metas de recuperar credibilidade.

E, fatores como os reflexos do El Niño sobre a oferta agropecuária, o impacto da jornada de trabalho sobre custos e a implementação da reforma tributária também podem alterar significativamente o balanço de riscos.

Perspectivas para a política monetária brasileira em 2027

A atenção para 2027 enfim, se volta para a continuidade dos choques de oferta e a desancoragem de expectativas e o custo de agir tarde que tende a superar o custo de esperar um pouco mais.

A pausa atual é uma escolha prudente entre dois riscos: frear demais uma atividade já em moderação ou permitir que a inflação de médio prazo se torne mais persistente.

Ao priorizar a segunda preocupação, o Comitê reafirma que a melhor forma de reduzir juros de maneira duradoura não é prometer cortes rápidos, mas restaurar a confiança de que a inflação convergirá à meta.

Roberto Simioni Neto

Roberto Simioni Neto

Mestre em economia pela pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mais de 25 anos de experiência na área de investimentos on e offshore. Certificações CNPI, CEA, CPF. Economista-chefe na Blue3 Investimentos.

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