Desafios pós-palanque: o verdadeiro teste começa agora

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Desafios pós-palanque: o verdadeiro teste começa agora

19 out 2026

Roberto Simioni NetoRoberto Simioni Neto

O verdadeiro teste começa agora! A eleição presidencial definirá quem receberá o mandato para governar o Brasil, mas não determinará, por si só, a política econômica que será implementada.

Uma vitória eleitoral produz uma informação importante, porém incompleta, informa quem ganhou, mas não informa como o país será governado.

A política econômica não é executada por uma pessoa isolada; resulta de uma arquitetura institucional composta por ministros, equipes técnicas, Congresso, Senado, Banco Central, Tesouro, reguladores, governadores e agentes privados.

A qualidade dessa arquitetura e não apenas a orientação ideológica do vencedor, determinará se o mandato eleitoral poderá ser convertido em estabilidade macroeconômica, investimento e crescimento.

Os cinco principais desafios econômicos do próximo governo

O Brasil não entregará ao próximo presidente uma folha em branco. Dívida pública elevada, rigidez orçamentária, inflação de serviços persistente, custo de financiamento alto, envelhecimento populacional e baixo crescimento da produtividade não desaparecerão com a mudança de governo.

A eleição escolhe o presidente; não escolhe as condições econômicas nas quais ele terá de operar.

Por isso, a pergunta relevante não é apenas se vencerá Lula ou Flávio Bolsonaro, mas qual capacidade de governo emergirá do resultado, e se ela será suficiente para compatibilizar três objetivos que, embora frequentemente apresentados como conflitantes, são complementares, estabilizar a dívida, conduzir a inflação à meta e elevar o crescimento potencial.

Independentemente do vencedor, o próximo governo enfrentará cinco desafios centrais.

Governabilidade no Congresso e no Senado

O primeiro será construir governabilidade no Congresso e no Senado. O mandato popular não se transforma automaticamente em maioria legislativa funcional.

O tamanho das bancadas importa, mas a coesão partidária, a distribuição de cargos, as prioridades regionais, a relação com as presidências das Casas e o custo político de cada reforma importam igualmente.

O Congresso não é apenas um obstáculo ao Executivo, é uma instituição com interesses próprios, capaz de alterar substancialmente o conteúdo das políticas propostas.

Dívida pública e credibilidade fiscal

O segundo será estabilizar a dívida pública e recuperar a credibilidade fiscal.

A trajetória da dívida depende não apenas do resultado primário, mas também do custo efetivo de financiamento, do crescimento real, da maturidade dos títulos e dos ajustes de estoque, fluxo. Em termos simplificados:

Δdₜ ≈ (rₜ − gₜ)dₜ₋₁ − sₜ + aₜ

Quando o juro real efetivo da dívida supera o crescimento da economia, a estabilização exige maior esforço primário.

Quando o crescimento melhora e o custo de financiamento cai, o ajuste necessário torna,se menos penoso. Isso não dispensa disciplina, mas mostra que política fiscal e agenda de produtividade são inseparáveis.

Formação da equipe econômica

O terceiro desafio será formar uma equipe econômica com autoridade e capacidade de execução.

O nome do ministro da Fazenda importará, mas não bastará. Será decisiva sua autonomia para escolher colaboradores, coordenar o orçamento, negociar com o Legislativo e sustentar decisões diante de resistências internas.

Uma equipe competente pode antecipar custos, estruturar propostas legislativas e reduzir incerteza antes mesmo de produzir resultados fiscais mensuráveis.

Uma equipe fragilizada tende a produzir decisões reativas, projetos mal dimensionados e conflitos que corroem a credibilidade do governo.

Redução do prêmio de risco e dos juros

O quarto desafio será reduzir o prêmio de risco e criar condições para juros menores.

O presidente não define diretamente a Selic, nem controla a estrutura a termo dos juros. Essa curva incorpora expectativas de inflação, trajetória da atividade, risco fiscal, liquidez e confiança nas instituições.

Uma mudança na percepção de sustentabilidade da dívida pode afetar os juros longos, o câmbio e o investimento antes de qualquer alteração na taxa básica.

O objetivo não é produzir queda imediata de juros, mas reduzir de forma sustentável o custo de financiamento da economia.

Produtividade e crescimento econômico

O quinto será recuperar produtividade e crescimento potencial sem comprometer a estabilidade.

A consolidação fiscal é necessária, mas não suficiente. O Brasil precisará elevar a produtividade por meio de capital humano, infraestrutura, segurança, tecnologia, concorrência, previsibilidade regulatória e capacidade administrativa.

A questão central não é “mais Estado” ou “menos Estado”, mas que Estado o país consegue financiar , e que Estado produz maior retorno econômico e social por real gasto.

Vitória de Lula: os desafios para a política fiscal e a governabilidade

A vitória de Lula tem como desafio manter a credibilidade fiscal em um Legislativo adverso.

Para Lula, o desafio central será demonstrar que uma agenda de proteção social, investimento público e fortalecimento do mercado interno pode coexistir com uma trajetória crível de estabilização da dívida.

O problema não será a existência de gasto social em si. Transferências focalizadas, políticas de capital humano e investimentos públicos bem selecionados podem elevar produtividade, reduzir desigualdade e ampliar a capacidade futura da economia.

O problema surgirá se compromissos permanentes forem criados sem financiamento permanente, se receitas extraordinárias forem tratadas como recorrentes ou se exceções às regras fiscais se tornarem a regra, e não a exceção.

Os desafios políticos de um governo Lula

Sua primeira dificuldade será política. Diante de um Congresso e de um Senado potencialmente mais inclinados à direita, Lula deverá negociar com forças que não compartilham integralmente de sua visão sobre o papel do Estado, a tributação e a expansão do gasto público.

Isso não significa paralisia inevitável; significa que a qualidade da negociação será decisiva.

O presidente poderá dispor de legitimidade eleitoral e ainda assim depender de acordos fragmentados, concessões orçamentárias e trocas políticas para aprovar medidas essenciais.

O risco será que a necessidade de preservar a base parlamentar dilua a agenda fiscal, adie revisões de benefícios e subsídios e produza um ajuste menos ambicioso do que o exigido pela trajetória da dívida.

Os impactos econômicos de uma vitória de Lula

A segunda dificuldade será econômica.

O mercado poderá interpretar inicialmente uma vitória de Lula como maior risco fiscal, com abertura da curva de juros, pressão sobre o câmbio e reação negativa dos ativos.

Essa leitura, porém, não será definitiva. Se o presidente escolher uma equipe econômica tecnicamente forte e autônoma; se apresentar um programa fiscal transparente; se distinguir investimento público de despesa corrente; e se demonstrar disposição para revisar gastos de baixa eficiência, parte do prêmio de risco inicial poderá se dissipar.

A questão não será provar que o governo é “ortodoxo” ou “heterodoxo”, mas mostrar que suas decisões têm lastro orçamentário e que suas prioridades sociais serão financiadas de maneira sustentável.

Os primeiros três meses e o primeiro ano de governo

Nos primeiros três meses, Lula deverá responder a três perguntas, quem comandará a política econômica e com quanto poder; como serão financiadas as despesas sociais e os investimentos prometidos; e qual será a estratégia de negociação com um Legislativo menos alinhado.

Até o fim do primeiro ano, o teste será mais exigente, será necessário mostrar execução orçamentária, resultado primário compatível com o anunciado, aprovação das medidas que dependam do Congresso e preservação dos investimentos que sustentam o crescimento futuro.

O risco principal de um governo Lula será o seguinte, diante da resistência legislativa, optar por um ajuste superficial baseado em cortes de despesas discricionárias, adiamentos e receitas eventuais, sem enfrentar as rigidezes estruturais do orçamento.

A oportunidade será provar que é possível combinar inclusão social, investimento público e disciplina fiscal, desde que cada real adicional de gasto produza mais crescimento, proteção social ou capital humano.

Vitória de Flávio Bolsonaro: os desafios para as reformas econômicas

A vitória de Flávio Bolsonaro por sua vez, tem como desafio transformar expectativa de ajuste em reforma executável.

Para Flávio Bolsonaro, o desafio central será diferente na forma, mas semelhante na essência, converter uma expectativa inicial favorável de consolidação fiscal, maior participação privada e reformas pró mercado em medidas concretas, aprovadas e sustentáveis.

Uma vitória poderá ser recebida pelo mercado como um sinal de maior disciplina fiscal, redução de subsídios, avanço de concessões e melhoria do ambiente de investimento.

Juros longos poderão recuar, o real poderá se valorizar e a bolsa poderá reagir positivamente. Mas essa será apenas uma hipótese sobre políticas futuras, não um resultado econômico assegurado.

Maioria parlamentar e capacidade de aprovar reformas

Sua primeira dificuldade será transformar afinidade ideológica em capacidade legislativa.

Uma eventual maioria de direita no Congresso e no Senado poderá reduzir atritos iniciais, mas não garantirá votos homogêneos para medidas específicas.

Parlamentares podem concordar com o objetivo genérico de reduzir o déficit e divergir profundamente sobre quais despesas devem ser cortadas, quais subsídios devem ser eliminados, como distribuir emendas e quais interesses regionais devem ser protegidos.

A revisão de benefícios tributários, a redução de privilégios, mudanças em despesas obrigatórias e reformas administrativas impõem custos concentrados a grupos organizados, enquanto seus benefícios são difusos e de maturação lenta.

Nesse ambiente, uma maioria nominal pode conviver com uma minoria efetiva nas votações mais difíceis.

Ajuste fiscal e qualidade do gasto público

A segunda dificuldade será evitar que o discurso de ajuste se transforme em corte indiscriminado.

Reduzir despesa não é automaticamente virtude econômica. Cortar investimento, manutenção de infraestrutura, educação básica, saúde preventiva ou capacidade administrativa pode melhorar o resultado primário no curto prazo e, simultaneamente, piorar o crescimento potencial e a própria trajetória da dívida no médio prazo.

O sucesso de um governo Bolsonaro não dependerá simplesmente de reduzir o tamanho do Estado, mas de melhorar sua composição, preservar funções de alto retorno social, eliminar subsídios ineficientes, ampliar a participação privada onde ela agrega valor e criar segurança jurídica para o investimento.

Coordenação institucional e credibilidade econômica

A terceira dificuldade será institucional.

Uma agenda de consolidação exige coordenação entre o núcleo político, o ministro da Fazenda, Planejamento, o Tesouro e os partidos da base.

E, se houver conflito entre o discurso reformista e a prática de distribuição de recursos, se a equipe econômica tiver pouca autonomia ou se as primeiras medidas forem percebidas como insuficientes, o mercado poderá devolver rapidamente parte , ou todo , o ganho inicial de credibilidade.

O mercado não precifica apenas intenções; precifica a probabilidade de que intenções se tornem leis, orçamentos e resultados.

Os primeiros três meses e o primeiro ano de governo

Nos primeiros três meses, Flávio Bolsonaro deverá especificar quais despesas, subsídios e benefícios serão revisados; quais reformas terão prioridade; quais investimentos serão preservados; e como sua base parlamentar será organizada para votar matérias concretas.

Até o fim do primeiro ano, será necessário demonstrar impacto orçamentário identificável, avanço legislativo efetivo e capacidade de executar reformas sem comprometer infraestrutura, capital humano ou a estabilidade institucional.

O risco principal de um governo Flávio Bolsonaro será confundir uma maioria ideologicamente favorável com capacidade automática de implementar reformas, ou anunciar um ajuste cuja execução seja politicamente inviável.

A oportunidade será usar uma eventual maior proximidade entre Executivo e Legislativo para acelerar reformas, melhorar a composição do gasto e reduzir o custo de financiamento da economia.

Maioria de direita no Congresso: vantagem não é garantia de governabilidade

Maioria de direita, vantagem não é garantia.

É preciso separar três conceitos, maioria eleitoral, maioria parlamentar e maioria legislativa efetiva.

A vitória presidencial confere legitimidade, mas não assegura apoio no Congresso.

A presença de numerosos parlamentares de direita não garante que todos apoiem a mesma proposta de ajuste já que uma bancada pode concordar com o objetivo genérico de reduzir o déficit e divergir profundamente sobre quais despesas cortar, quais subsídios revisar e como distribuir recursos regionais.

Governabilidade em um eventual governo Lula

Para Lula, diante de uma maioria de direita, a principal dificuldade será de governabilidade.

Ele deverá negociar com partidos de oposição e do centro-direita para transformar suas prioridades em legislação, sobretudo em matérias que envolvam financiamento permanente, eficiência do gasto e revisão de despesas.

O risco político será a diluição de propostas, a necessidade de concessões orçamentárias e a demora na aprovação das medidas.

O risco econômico será a perda de credibilidade caso a negociação impeça a construção de uma trajetória fiscal consistente.

Sua condição de sucesso será manter uma negociação previsível com o Legislativo sem abandonar a coerência do programa fiscal.

Governabilidade em um eventual governo Flávio Bolsonaro

E, para Flávio Bolsonaro, uma eventual maioria de direita poderá representar uma vantagem inicial de governabilidade, mas ela será condicionada à coesão da própria base.

O desafio não será apenas contar com parlamentares ideologicamente próximos, e sim converter essa afinidade em votos para medidas concretas de ajuste, reforma e revisão de subsídios.

O risco político será a fragmentação da coalizão, os conflitos internos e a resistência de grupos que seriam diretamente afetados por cortes ou mudanças de regras.

O risco econômico será a perda de credibilidade caso a expectativa inicial de consolidação não se converta em execução efetiva.

Sua condição de sucesso será combinar disciplina política com capacidade real de aprovar reformas fiscalmente relevantes.

As diferenças entre maioria política e capacidade legislativa

A diferença mais importante é que Lula poderá enfrentar resistência ideológica mais explícita em parte do Legislativo, enquanto Flávio Bolsonaro poderá encontrar maior proximidade programática com uma parcela da direita parlamentar.

Mas essa vantagem potencial não elimina divergências sobre emendas, recursos regionais, subsídios e prioridades setoriais.

Além disso, maioria simples não equivale a capacidade de aprovar qualquer mudança institucional, projetos de lei, medidas provisórias, leis orçamentárias e propostas de emenda à Constituição seguem procedimentos e quóruns diferentes.

O que esperar dos primeiros meses do próximo governo?

Os primeiros três meses serão um período de definição da função de reação do novo governo.

O mercado tentará descobrir não apenas quais políticas serão anunciadas, mas quais delas terão condições políticas, institucionais e fiscais de sair do papel.

Nesse período, deverão ficar claras a trajetória fiscal pretendida, as medidas que a sustentam e a forma como o ajuste será compatibilizado com o crescimento.

O primeiro ano será o teste da execução.

A avaliação deverá se concentrar em resultados observáveis, execução orçamentária, evolução do resultado primário, qualidade das medidas aprovadas, cumprimento das regras fiscais, comportamento do custo de financiamento e sinais de recuperação do investimento.

Um único resultado trimestral não confirmará nem invalidará uma estratégia, mas inconsistências repetidas entre discurso, orçamento e execução podem deteriorar a credibilidade com rapidez.

O verdadeiro desafio será transformar o resultado eleitoral em crescimento econômico

A eleição não encerrará a incerteza e sim, apenas mudará sua natureza.

Lula terá de demonstrar que é possível financiar prioridades sociais e investimento público dentro de uma trajetória crível de dívida, mesmo diante de um Legislativo potencialmente adverso.

Flávio Bolsonaro terá de demonstrar que uma eventual maioria de direita é capaz de aprovar um programa fiscal coerente e executável, sem destruir as capacidades públicas necessárias ao desenvolvimento.

Nenhuma vitória assegura, por si mesma, responsabilidade fiscal; nenhuma composição legislativa desfavorável implica, necessariamente, paralisia econômica.

O Brasil não resolverá seu problema fiscal apenas aumentando impostos ou cortando despesas, pois precisará de um orçamento mais produtivo, regras críveis, instituições estáveis, proteção social focalizada e crescimento capaz de ampliar a base de financiamento do Estado.

O verdadeiro teste do próximo presidente não será provar que venceu a eleição, mas demonstrar que consegue governar depois dela, transformar mandato em instituições, maioria em capacidade legislativa e programa econômico em resultados observáveis.

Roberto Simioni Neto

Roberto Simioni Neto

Mestre em economia pela pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mais de 25 anos de experiência na área de investimentos on e offshore. Certificações CNPI, CEA, CPF. Economista-chefe na Blue3 Investimentos.

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