Quem lucra com o caos já estava posicionado quando ele chegou. Você estava?

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Quem lucra com o caos já estava posicionado quando ele chegou. Você estava?

16 jul 2026

Rogério BarrocalRogério Barrocal

O mercado global de commodities é controlado por um punhado de empresas que ninguém conhece pelo nome. Quando há guerra, crise ou escassez, elas lucram. O que isso tem a ver com a sua inflação, os seus juros e a preservação do seu patrimônio é o que quase nenhum assessor explica.

O petróleo chegou a US$ 126 o barril no auge do conflito EUA-Irã. Agora, com negociações de paz avançando e o Estreito de Ormuz reabrindo para a navegação, o Brent recuou para cerca de US$ 73. O noticiário tratou isso como alívio. O Boletim Focus, no mesmo período, continuou revisando o IPCA e a Selic para cima pela décima terceira semana consecutiva.

O que raramente aparece nessa cobertura é o seguinte: enquanto você acompanha o noticiário e tenta entender como isso vai afetar o seu patrimônio, há um pequeno grupo de empresas que já estava estruturado para operar quando o mercado entrou em pane.

Não necessariamente porque previram o conflito, mas porque construíram, ao longo de décadas, a infraestrutura, o capital e os relacionamentos que se tornam indispensáveis exatamente quando o sistema trava.

São as maiores tradings de commodities do mundo: Vitol, Glencore, Trafigura, Mercuria. Você provavelmente nunca ouviu falar de nenhuma delas. Elas movimentam mais riqueza por dia do que a maioria dos países produz em um ano.

Entender como esse sistema funciona não é curiosidade geopolítica. É leitura de risco. Porque o mecanismo que faz essas empresas lucrarem em momentos de caos é exatamente o mesmo que corrói o poder de compra do seu patrimônio, pressiona seus juros e dificulta qualquer planejamento de longo prazo em reais.

As empresas que ninguém conhece pelo nome.

A Vitol foi fundada em Rotterdam em 1966. Hoje, ela negocia mais petróleo por dia do que toda a Alemanha, França, Itália, Espanha e Reino Unido consomem juntos.

Não tem ações em bolsa. Não tem obrigação legal de publicar resultados. Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia e o mercado de energia entrou em colapso, a Vitol registrou lucro líquido de US$ 15,1 bilhões, a maior rentabilidade anual de qualquer empresa de trading de commodities da história.

A Glencore, com receita de aproximadamente US$ 240 bilhões em 2024, controla 12% da produção global de cobre e domina frações expressivas do mercado de zinco e carvão. A Trafigura movimentou cerca de US$ 180 bilhões no mesmo período. Juntas, essas três empresas e mais algumas poucas rivais controlam a maior parte do fluxo físico global de petróleo, metais e grãos.

Elas não são especuladoras financeiras no sentido estrito. São operadoras de arbitragem física global: compram commodity de quem precisa vender, vendem para quem precisa comprar e lucram com a diferença, logística, timing e informação.

Em momentos de normalidade, as margens são apertadas. Em momentos de crise, quando há escassez real, bloqueio de rota ou colapso de oferta, as margens explodem.

"Quem controla o fluxo físico das commodities não precisa prever a crise. Precisa estar estruturado para ser indispensável quando ela chega."

O mecanismo: como crise vira lucro.

A lógica de negócio dessas empresas não é manipular preços, embora escândalos de corrupção envolvendo Vitol, Glencore e Trafigura na Petrobras tenham mostrado que o limite entre informação privilegiada e arbitragem legítima pode ser tênue.

A lógica central é mais simples e mais estrutural: quem tem infraestrutura logística, capital de giro gigantesco e informação de mercado em tempo real tem vantagem assimétrica quando o sistema trava.

Quando um conflito bloqueia o Estreito de Ormuz ou uma sanção corta o petróleo russo do mercado europeu, não há volume suficiente no mercado para redirecionar tudo de imediato.

Quem tem navios, contratos de armazenamento e posição nos portos certos resolve esse problema, e cobra por isso. Quanto maior o caos, maior a taxa que o mercado aceita pagar.

O resultado é documentado em cada crise recente: quando o mundo queima, essas empresas lucram. Isso não é uma crítica moral ao modelo. É uma observação estrutural sobre como o mercado global de commodities funciona e sobre quem paga a conta quando os preços explodem.

O que isso tem a ver com o seu patrimônio no Brasil?

A resposta direta é: tudo. O Brasil é um dos países mais expostos ao ciclo de commodities do mundo. Isso é uma vantagem quando os preços sobem para os produtores. Mas quando o choque é de custo, como o de petróleo, o efeito é invertido: o país importa inflação embalada em dólar, o Banco Central perde graus de liberdade e a Selic fica travada em patamares que deveriam ser temporários, mas se prolongam.

O que o choque atual já está produzindo é visível nos números. O Santander revisou a projeção da Selic para 2026 de 12,25% para 12,50% exclusivamente por conta da alta do petróleo. A XP e o Banco Inter revisaram inflação para cima.

O Copom reduziu a Selic em apenas 0,25 ponto percentual na última reunião, seu primeiro corte em quase dois anos, mas o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, foi explícito: o choque externo exige cautela antes de qualquer novo movimento.

O mecanismo de transmissão.

Petróleo acima de US$ 100 eleva combustíveis, que eleva frete, que eleva alimentos e manufaturados. O IPCA sobe. O Banco Central não pode cortar juros com inflação acima do teto da meta. A Selic fica alta. O custo de capital sobe.

A renda fixa parece atrativa, mas o juro real encolhe. E o real, dependendo da percepção de risco, pode se enfraquecer, corroendo ainda mais o poder de compra de quem tem todo o patrimônio em moeda local.

A ilusão da renda fixa como porto seguro.

Num cenário de Selic a 13,25%, a tentação de concentrar o patrimônio em pós-fixado é real. CDI alto parece segurança. Parece que o dinheiro está protegido. E no curto prazo, nominalmente, está.

O problema é o que fica de fora do extrato. Com IPCA projetado em 4,92%, o retorno real da renda fixa pós-fixada cai para algo entre 7% e 8% bruto, antes de impostos.

Depois de IR e come-cotas, dependendo do veículo, o número real disponível pode ficar entre 4% e 5% ao ano. Num contexto em que o petróleo pressiona a inflação global e o dólar corrói o poder de compra internacional, essa rentabilidade compensa o risco de ficar 100% dentro de um sistema econômico classificado como grau especulativo pelas três maiores agências do mundo?

A resposta não é abandonar a renda fixa. É parar de tratá-la como estratégia de proteção quando ela é, na melhor das hipóteses, uma proteção parcial, válida contra a inflação doméstica mas cega para o risco cambial, o risco de legislação tributária e o risco de um novo choque que corrija as expectativas de mercado de forma brutal.

"O CDI protege contra a inflação brasileira. Não protege contra o Brasil. E em anos de choque de commodities, a diferença entre as duas coisas pode ser decisiva."

O padrão que se repete: cinco crises, a mesma lógica.

O que o histórico mostra é que choques de commodities não são eventos imprevisíveis. Eles têm uma lógica recorrente: alguma combinação de geopolítica, oferta restrita e capital global em busca de segurança produz o mesmo resultado, o real desvaloriza, a inflação sobe, a Selic trava, e quem estava concentrado em ativos locais sofre duplamente.

O que o investidor sofisticado faz diferente.

Quem entende esse mecanismo não reage ao choque quando ele já está instalado. Estrutura a carteira de forma que parte do patrimônio se beneficie, ou ao menos não seja destruída, quando o sistema global de commodities entra em colapso de preços.

Isso não significa comprar ações de petrolíferas ou tentar replicar o modelo das tradings. Significa reconhecer que um patrimônio inteiramente em reais, inteiramente dentro do sistema financeiro brasileiro, é uma aposta concentrada num único cenário: o de que o Brasil vai se comportar bem e que nenhum choque externo vai ser grande o suficiente para quebrar essa aposta. Historicamente, essa aposta perde em dois de cada três anos.

Perguntas que valem levar para a próxima reunião com o seu assessor

  • O petróleo subiu mais de 70% em semanas e voltou ao patamar pré-conflito. O IPCA e a Selic continuaram sendo revisados para cima durante toda a descida. O que isso diz sobre a sensibilidade real da minha carteira a choques externos, mesmo depois que eles aparentemente passam?
  • Qual percentual do meu patrimônio está protegido contra desvalorização do real acima de 20%? A resposta deveria vir com números, não com conceitos.
  • O meu assessor tem clareza sobre como choques de commodities afetam a Selic, o câmbio e a minha alocação atual, e isso já está refletido em alguma estratégia concreta?

A diferença entre um assessor operacional e um assessor estratégico aparece com precisão em momentos como esse. O primeiro te explica o que está acontecendo. O segundo te mostra o que a estrutura atual do seu patrimônio implica diante do que está acontecendo, e propõe um ajuste antes que o ajuste se torne urgente.

Os grandes traders de commodities do mundo não enriquecem apesar do caos. Enriquecem por causa dele, porque têm estrutura, informação e posicionamento prévio. O investidor pessoa física não precisa, nem consegue, jogar o mesmo jogo. Mas pode aprender a não ser sempre o pagador da conta.

A questão central não é se haverá o próximo choque. A sequência histórica mostra que haverá. A questão é se, quando ele acontecer, a estrutura do seu patrimônio vai absorvê-lo ou amplificá-lo.

Fontes

Banco Mundial, Commodity Markets Outlook (abr. 2026) · Banco Central do Brasil, Boletim Focus (jun. 2026) · Agência Brasil / Infomoney, projeções IPCA e Selic (jun. 2026) · Infomoney / Santander Research (mar. 2026) · Trading Economics, histórico Brent (jun. 2026) · Bloomberg / Rigzone, Vitol Group filings Luxembourg (2024–2025) · Bloomberg / Mining.com, Glencore e Trafigura metals trading (2025) · Public Eye, Vitol/Glencore/Trafigura Petrobras scandal · Le Monde Diplomatique Brasil, "Commodities, o novo sigilo fiscal dos suíços?" · Elos Ayta / CNN Brasil, desvalorização cambial 2024 · Economatica, histórico cambial BRL/USD (1994–2024)

Rogério Barrocal

Rogério Barrocal

Engenheiro, com pós-graduação em finanças e certificação CFP®, atuou como CFO e CEO com mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro. Sócio da Blue3 Investimentos.

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