Geoeconomia: aliança asiática fortalece SCO enquanto Trump pressiona Big Techs
coluna-especialistas
Geoeconomia: aliança asiática fortalece SCO enquanto Trump pressiona Big Techs
5 set 2025

Esta semana, dois eventos geopolíticos de grande relevância ocorreram. Mas foram ofuscados por questões de política interna no Brasil, como os impactos de um "tarifaço" ou o julgamento de Jair Bolsonaro.
No entanto, esses acontecimentos foram marcantes e talvez determinantes para os próximos anos. Enquanto a Ásia aprofunda uma aliança entre países que buscam construir conexões geoeconômicas mais robustas, na América, o olhar saudosista para um passado em que a autocracia dividia espaço com oligarcas ganha força.
Esse movimento é visto como um claro aceno ao desprezo que uma possível administração Trump pode ter em relação a Taiwan.
Estratégia geoeconômica da SCO
A cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (SCO), realizada nesta semana, aconteceu em um contexto de crescente tensão entre os países emergentes e o Ocidente.
O encontro evidenciou uma movimentação estratégica para construir uma nova arquitetura internacional baseada no multilateralismo, na soberania nacional e na cooperação regional.
A SCO tem se consolidado como um dos principais polos de articulação geoeconômica fora do eixo ocidental, reunindo potências como China, Rússia, Índia e Irã, além de países estratégicos da Ásia Central.
Essa configuração permite que a organização transcenda interesses militares e se projete como um vetor de desenvolvimento econômico e infraestrutural.
O bloco fortalece corredores comerciais, estimula investimentos em energia e logística e promove a diversificação das cadeias produtivas entre os membros.
Desafios estruturais e financeiros
A integração econômica entre os países da SCO, no entanto, enfrenta desafios estruturais, institucionais e geopolíticos.
A heterogeneidade econômica dos membros, que inclui potências industriais como China e Rússia, ao lado de economias menores e em desenvolvimento como Quirguistão e Tajiquistão, impõe barreiras para a harmonização de políticas macroeconômicas, a padronização regulatória e a criação de mecanismos financeiros comuns.
A ausência de uma moeda única ou de um sistema financeiro integrado limita a fluidez das transações comerciais e financeiras no bloco, dificultando a formação de uma zona de livre-comércio robusta.
Embora haja discussões sobre a criação de um banco de desenvolvimento da SCO, inspirado no modelo do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, essas iniciativas ainda carecem de consenso político e viabilidade técnica.
Infraestrutura e gargalos regionais
No campo da infraestrutura, a integração logística entre os países da Ásia Central e os demais membros da SCO demanda investimentos expressivos em corredores de transporte, redes energéticas e conectividade digital.
Projetos como a Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), liderada pela China, têm contribuído para mitigar esses gargalos, mas ainda existem deficiências significativas que comprometem a eficiência das cadeias produtivas regionais.
Além disso, o contexto geopolítico exerce influência direta sobre a dinâmica econômica da SCO. Muitos dos países-membros enfrentam sanções unilaterais impostas por potências ocidentais, o que restringe seu acesso a mercados, tecnologias e capitais internacionais.
Sanções e alternativas financeiras
A SCO tem se posicionado de forma crítica frente a essas medidas, defendendo uma ordem econômica internacional mais equitativa e multipolar.
Para que essa retórica se traduza em ação concreta, será necessário desenvolver mecanismos de resiliência econômica e autonomia estratégica, como sistemas alternativos de pagamentos e acordos bilaterais em moedas locais.
Outro obstáculo relevante é a ausência de mecanismos institucionais eficazes para a resolução de disputas comerciais e a harmonização normativa. Sem uma estrutura jurídica supranacional, os conflitos são tratados de forma ad hoc, comprometendo a previsibilidade e a segurança jurídica dos investimentos.
Do ponto de vista econômico, o encontro focou na ampliação do comércio entre os países-membros, com destaque para a proposta de reduzir a dependência do dólar americano nas transações internacionais.
Moedas locais e energia
A China sugeriu o uso de moedas locais e sistemas financeiros alternativos, enquanto Rússia e Índia firmaram acordos para intensificar o intercâmbio comercial em setores como energia, tecnologia e agricultura.
No campo monetário e energético, a SCO tem sinalizado movimentos que desafiam a hegemonia do dólar e das instituições financeiras ocidentais. Discussões sobre a criação de mecanismos alternativos de pagamento, a formação de um cartel de gás natural e o incentivo à cooperação nuclear revelam a ambição de reconfigurar o tabuleiro econômico global.
Ao fomentar acordos bilaterais e multilaterais com base em moedas locais e interesses comuns, os países-membros buscam maior autonomia frente às pressões geopolíticas externas. Além de seu papel econômico, a SCO atua como plataforma diplomática para países que compartilham uma visão multipolar do mundo.
Diplomacia e influência regional
A presença de Estados com agendas divergentes, como Índia e China, demonstra a capacidade da organização de acomodar tensões e promover o diálogo estratégico.
Nesse sentido, a SCO amplia sua influência regional e se posiciona como um contrapeso às estruturas tradicionais de poder, oferecendo aos seus membros uma alternativa de cooperação baseada no pragmatismo e na soberania.
Durante a cúpula, o presidente russo Vladimir Putin propôs medidas concretas para aprofundar a integração econômica entre os países-membros, incluindo a emissão de títulos conjuntos, a criação de um sistema próprio de pagamentos e liquidações comerciais, e a formação de um banco para projetos de investimento multilaterais.
Essas iniciativas representam uma tentativa clara de construir uma arquitetura econômica alternativa à dominância ocidental, especialmente após as sanções que afetaram os sistemas de pagamento russos desde a invasão à Ucrânia em 2022.
Índia e integração eurasiática
Segundo Putin, tais mecanismos fortaleceriam a resiliência econômica do grupo frente às flutuações externas e promoveriam maior autonomia financeira.
A SCO, ao se posicionar como um bloco econômico e político alternativo, oferece à Índia uma plataforma para ampliar sua influência regional sem comprometer seus interesses globais.
A participação ativa da Índia nas discussões sobre integração financeira e conectividade demonstra que o país está disposto a moldar o futuro da cooperação eurasiática, desde que isso esteja alinhado com seus objetivos de desenvolvimento e segurança.
A Índia busca novas oportunidades de financiamento para projetos estratégicos, especialmente em infraestrutura, energia e inovação. No entanto, persistem desafios, como as tensões bilaterais com a China e a necessidade de preservar sua autonomia estratégica.
Índia como elo regional
Desde sua entrada na SCO em 2017, a Índia tem desempenhado um papel estratégico e multifacetado, equilibrando sua participação no grupo com seus interesses regionais e globais.
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, apresentou a visão da Índia centrada na promoção da segurança, conectividade e oportunidade.
O país defendeu o fortalecimento de projetos como o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC) e o Porto de Chabahar, com o objetivo de conectar a Ásia Central ao Oceano Índico, ampliando o alcance comercial da região e posicionando a Índia como um elo vital entre o Oriente Médio, a Ásia Central e o Sul da Ásia.
Modi também propôs a criação de um fórum para o intercâmbio cultural entre os países-membros, destacando o papel da Índia como uma das economias mais dinâmicas do mundo, com crescimento robusto e avanços tecnológicos significativos.
O retorno da autocracia americana
Ao mesmo tempo em que alguns países reforçam alianças estratégicas para o futuro, a administração Trump parece retroceder economicamente no tempo.
No início do século XX, os Estados Unidos passaram por uma intensa transformação econômica, impulsionada pela industrialização acelerada, pela expansão das ferrovias e pela consolidação de grandes conglomerados financeiros.
Esse crescimento foi marcado pela ascensão de uma verdadeira oligarquia empresarial, formada por magnatas como Rockefeller, Morgan e Carnegie, que moldaram a produção e a política, influenciando diretamente decisões legislativas e regulatórias.
Em resposta a essa concentração de poder econômico, a presidência americana, especialmente sob líderes como Theodore Roosevelt, adotou uma postura mais assertiva, buscando ampliar sua autoridade por meio de políticas antitruste e reformas regulatórias.
Embora os Estados Unidos fossem uma democracia consolidada, esse período revelou traços de uma autocracia presidencial, na medida em que o Executivo passou a centralizar decisões e confrontar diretamente os interesses da elite empresarial.
Tensões políticas e econômicas
Essa tensão entre o poder político e o domínio econômico moldou profundamente o cenário político-econômico dos Estados Unidos.
A presidência de Woodrow Wilson intensificou esse embate ao promover reformas sociais e econômicas que buscavam limitar o poder dos oligarcas e fortalecer o papel do Estado na regulação do mercado.
Ao mesmo tempo, o contexto da Primeira Guerra Mundial exigiu decisões rápidas e centralizadas, reforçando o caráter autocrático da liderança presidencial.
Esse equilíbrio instável entre autoridade política e influência empresarial não apenas definiu os rumos da economia americana, mas também lançou as bases para o modelo de capitalismo regulado que se consolidaria ao longo do século XX.
Mais de um século depois, esse embate entre Estado e elite econômica ressurge com contornos surpreendentemente familiares.
Trump e as Big Techs
A reunião ocorrida ontem na Casa Branca entre o presidente Donald Trump e os principais executivos das Big Techs (Apple, Meta, Google e Microsoft) remete diretamente à lógica do início do século passado.
Assim como Roosevelt confrontava os barões industriais, D. Trump agora pressiona os oligarcas digitais a investir em produção doméstica, sob a pena de enfrentar tarifas de até 100% sobre semicondutores e produtos tecnológicos fabricados fora dos Estados Unidos.
A ausência de Elon Musk, que rompeu publicamente com Trump após críticas ao pacote tarifário, reforça o clima de tensão e revela que, mais uma vez, o Executivo busca se impor sobre os interesses privados com mão firme.
No jantar, Trump adotou uma postura informal, mas incisiva, exigindo compromissos concretos de investimento em solo americano.
As promessas bilionárias feitas por Zuckerberg, Cook e Nadella foram recebidas como vitórias políticas, mas também como um sinal de que o Estado voltou a ocupar o centro da arena econômica.
Reindustrialização seletiva
A estratégia de D. Trump que combina protecionismo tarifário, incentivos fiscais e desregulamentação reflete a tentativa clara de reindustrialização seletiva, focada em setores estratégicos como inteligência artificial, semicondutores e infraestrutura de dados.
A abordagem, embora envolta em retórica nacionalista, revela uma reedição moderna da autocracia presidencial, em que o chefe do Executivo centraliza decisões e redefine as regras do jogo econômico.
Ao mesmo tempo, os líderes das Big Techs representam uma nova oligarquia empresarial, com poder global e influência sobre algoritmos, dados e opinião pública.
A dependência mútua entre governo e empresas se intensifica em um cenário marcado por disputas tecnológicas com a China, escassez de semicondutores e corrida pela supremacia em inteligência artificial.
Nesse contexto, o Estado americano se reposiciona como agente ativo na definição dos rumos produtivos, enquanto as corporações buscam se adaptar às novas exigências sem perder sua autonomia estratégica.
Confronto entre Estado e empresas
O equilíbrio entre regulação e liberdade empresarial volta ao centro do debate, e com ele, a memória de um passado em que o poder se concentrava em poucos polos decisórios.
O jantar na Casa Branca não foi apenas um encontro simbólico, mas um movimento de reposicionamento das forças que moldam a economia americana.
A tensão entre a centralização presidencial e o poder das big techs remete aos embates do início do século XX, quando Roosevelt enfrentava os trustes industriais. Hoje, Trump confronta os oligarcas digitais com uma combinação de ameaça tarifária e promessas de benefícios fiscais.
O resultado é um retorno estrutural a um modelo em que o poder político se verticaliza e o poder econômico se concentra, em uma reedição contemporânea da velha fórmula entre autocracia presidencial e economia oligárquica, agora adaptada aos desafios tecnológicos do século XXI.
Taiwan e os semicondutores
Essa reedição contemporânea da velha fórmula entre autocracia presidencial e economia oligárquica, adaptada aos desafios tecnológicos do século XXI, também revela implicações geopolíticas mais amplas, especialmente no que diz respeito à posição estratégica de Taiwan.
O texto sugere uma complexa interligação entre esses fatores. A administração Trump tem expressado um forte desejo de reindustrializar os Estados Unidos, com ênfase em setores estratégicos como a produção de semicondutores.
Essa política visa reduzir a dependência externa, fortalecer a segurança nacional e criar empregos nos EUA. Para isso, tarifas significativas são impostas a produtos fabricados fora do país, incentivando empresas a transferir ou expandir sua produção para o território americano.
Taiwan em posição delicada
Taiwan é, de longe, o maior produtor mundial de semicondutores avançados, com a TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company) sendo a líder global nesse setor. Uma política que força a produção para os EUA inevitavelmente impacta a posição de Taiwan nesse mercado.
Embora a TSMC já esteja investindo nos EUA, uma pressão contínua para que a produção principal ocorra em solo americano pode, em tese, reduzir a centralidade estratégica de Taiwan aos olhos dos EUA. Essa dinâmica cria um dilema para Taiwan.
Por um lado, a TSMC responde aos incentivos americanos com investimentos significativos nos EUA, buscando garantir sua relevância no mercado global e manter relações comerciais com o maior mercado consumidor de tecnologia.
O dilema do escudo de silício
Por outro lado, a forte dependência de Taiwan na produção de chips é vista por muitos como um "escudo de silício", um impedimento para a China devido à sua importância tecnológica para o mundo.
Se essa concentração de produção em Taiwan diminuir, isso poderia, teoricamente, reduzir essa "proteção" estratégica. A disputa tecnológica entre EUA e China pela supremacia em áreas como inteligência artificial e semicondutores intensifica essa questão.
A tentativa dos EUA de diversificar a produção de chips, tirando parte dela de uma localização geograficamente sensível como Taiwan, pode ser vista como uma estratégia para mitigar riscos em caso de conflito com a China.
A política de Trump de trazer a produção de semicondutores para os EUA, embora vise fortalecer a economia e a segurança nacional americanas, pode, na prática, aumentar a percepção de vulnerabilidade de Taiwan, que se encontra na vanguarda dessa indústria essencial.
Conclusão: movimentos opostos
A ilha está em uma posição delicada, buscando equilibrar seus interesses comerciais e sua segurança estratégica em um cenário de crescentes tensões geopolíticas e de mudanças nas prioridades americanas. E nesse sentido, o "aceno ao desprezo" ganha uma nova dimensão.
Inclusive, a ênfase em trazer a produção para os EUA, mesmo que isso gere incertezas para Taiwan, pode ser interpretada como uma priorização dos interesses americanos acima da manutenção do status quo geopolítico que atualmente favorece a segurança da ilha.
Aos poucos, avançamos em direções contrárias, pois de um lado, governantes com orientação autocrata buscam mais do que apoio: buscam uma ancoragem no status quo oligárquico do passado. E de outro, autocratas governam movimentos de alinhamento geopolítico, olhando para desafios futuros de integração.

Roberto Simioni Neto
Mestre em economia pela pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mais de 25 anos de experiência na área de investimentos on e offshore. Certificações CNPI, CEA, CPF. Economista-chefe na Blue3 Investimentos.
Saber mais



