Muito além do futebol: a inteligência patrimonial de Ancelotti
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Muito além do futebol: a inteligência patrimonial de Ancelotti
19 mai 2025

Em maio de 2025, o mundo do futebol foi surpreendido com o anúncio oficial de Carlo Ancelotti como novo técnico da Seleção Brasileira.
A chegada do multicampeão italiano ao comando da equipe canarinho reacendeu não apenas o entusiasmo dos torcedores, mas também discussões mais amplas sobre liderança, legado e planejamento de longo prazo.
Para além das quatro linhas, a figura de Ancelotti oferece um excelente ponto de partida para refletir sobre um tema frequentemente negligenciado: a sucessão patrimonial em contextos de alta complexidade familiar, fiscal e internacional.
Estrutura familiar e formação de base
Carlo Ancelotti nasceu em Reggiolo, uma pequena comuna na Emilia-Romagna, Itália. Teve dois filhos com sua primeira esposa, Luisa Gibellini, falecida em 2021: Katia e Davide.
Atualmente, é casado com Mariann Barrena McClay, empresária canadense de origem espanhola, com quem reside em Madri. Mariann tem uma filha de relacionamento anterior, Chloe, que também integra a família reconstituída do treinador.
Formado em Ciências do Esporte e Fisiologia, Davide acompanhou o pai em clubes como PSG, Bayern de Munique, Napoli, Everton e Real Madrid, atuando como seu assistente técnico direto.
Essa atuação conjunta vai além da função operacional: é um exemplo claro de transferência de conhecimento, legitimidade e autoridade por meio da convivência e da prática.
Katia, por sua vez, atua na área de comunicação, foi apresentadora na Chelsea TV e hoje administra uma academia em Milão, além de dedicar-se à maternidade.
Excelência consagrada
A carreira de Carlo Ancelotti transcende gerações. Como jogador, destacou-se na Roma e no Milan, conquistando títulos nacionais e continentais.
No entanto, sua ascensão à categoria de lenda ocorreu no banco de reservas. Como técnico, Ancelotti é o único da história a vencer a UEFA Champions League cinco vezes (2002/03 e 2006/07 pelo Milan, 2013/14, 2021/22 e 2023/24 pelo Real Madrid) e o único a conquistar os cinco principais campeonatos europeus: Serie A, Premier League, Ligue 1, Bundesliga e La Liga.
Seus métodos conciliadores, sua liderança discreta e sua capacidade de adaptação tornaram-no respeitado por atletas, dirigentes e instituições esportivas. Ele transformou vestiários em centros de governança emocional e técnica.
Planejamento em múltiplas frentes
Estima-se que o patrimônio líquido de Carlo Ancelotti esteja entre US$ 50 milhões e US$ 60 milhões (aproximadamente R$ 300 milhões). Esse valor abrange:
- Imóveis de alto padrão: vila em La Finca (Madri), imóvel em Londres (adquirido na época do Chelsea), residência em Parma (Itália) e uma casa em Vancouver (Canadá), totalizando cerca de R$ 71 milhões em patrimônio imobilizado.
- Rendimentos contratuais: salários milionários em clubes de elite e, a partir de 2025, um contrato com a Seleção Brasileira estimado em US$ 11 milhões por ano, o maior entre técnicos de seleções nacionais.
- Ativos intangíveis: direitos autorais do livro Quiet Leadership, contratos publicitários com Adidas, EA Sports e outras marcas.
- Investimentos financeiros: aplicações em fundos europeus, ações de baixo risco e, possivelmente, carteiras internacionais com blindagem jurídica.
Esse portfólio assegura conforto e estabilidade, exigindo um nível de planejamento estratégico que vai além do convencional.
Transmissão estratégica
Embora Ancelotti jamais tenha tornado pública uma estrutura jurídica específica, como trusts, holding companies, fundações privadas ou testamentos detalhados, alguns indícios apontam para práticas sofisticadas:
- Internacionalização da residência fiscal: ao manter domicílio na Espanha, onde herdeiros diretos têm isenção de até 99% do imposto de transmissão (ITP), ele evita jurisdições mais onerosas, como o Reino Unido.
- Profissionalização dos herdeiros: a integração de Davide ao núcleo técnico não apenas o prepara para sucedê-lo, mas também preserva o capital intelectual e o prestígio da família.
- Diversificação em múltiplas jurisdições: ao possuir bens na União Europeia, Reino Unido e Canadá, reduz riscos concentrados e garante liquidez em moeda forte.
- Provável existência de instrumentos de governança: não é incomum que indivíduos com esse perfil patrimonial recorram a testamentos vitalícios, fideicomissos e acordos pré-nupciais como mecanismos de preservação e organização.
Novo campo, velhos riscos
A entrada de Ancelotti no cenário brasileiro acende um alerta. O país tem um dos sistemas sucessórios mais burocráticos e ineficientes do mundo, com processos judiciais que podem se arrastar por anos. A alíquota do ITCMD (Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação) varia entre 2% e 8%, conforme o estado e o valor do patrimônio transmitido, com a possibilidade de aplicação de alíquotas progressivas introduzidas pela reforma tributária.
Além disso, o Brasil possui altos índices de violência patrimonial, insegurança jurídica e risco de sequestro, o que obriga qualquer figura de alta exposição a adotar medidas adicionais, como blindagem jurídica, discrição em redes sociais e restrições contratuais.
Mesmo que Ancelotti não centralize sua vida financeira no país, a eventual aquisição de bens, movimentação bancária ou estabelecimento de residência temporária deve ser precedida por due diligence fiscal e sucessória. É provável que ele esteja assessorado por uma equipe internacional de wealth management e family office, capaz de mapear riscos e propor soluções preventivas.
Visão de longo prazo
Ancelotti não é apenas um arquiteto de táticas: é um construtor de legados. Sua trajetória demonstra que o verdadeiro sucesso vai além da glória imediata, mede-se pela capacidade de transmitir, proteger e perpetuar.
O Brasil, com sua complexidade fiscal e riscos sociais, oferece ao novo técnico não apenas o desafio esportivo de conquistar uma Copa, mas também o desafio institucional de preservar sua história e seus bens.
Se Carlo Ancelotti nos ensina algo, é que o futuro precisa ser preparado no presente. Com método. Com prudência. E com a serenidade de quem entende que toda herança começa com responsabilidade.
Imagem: Reprodução

João Cosme Souza e Silva Pereira
Sócio da Blue3 Investimentos e Especialista em Proteção Financeira e Planejamento Sucessório.
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