O luxo em ruínas: a guerra que derrubou o Torre Palace
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O luxo em ruínas: a guerra que derrubou o Torre Palace
8 out 2025•Última atualização: 7 outubro 2025

Do primeiro hotel de quatro estrelas de Brasília ao esqueleto cercado por concreto: quando a sucessão falha, a cidade herda um problema que a Justiça não resolve.
O esqueleto do Eixo Monumental
Brasília aprendeu cedo que até o concreto pode apodrecer.
No Setor Hoteleiro Norte, entre a Torre de TV e o Congresso, ergue-se um monumento ao descuido: o Torre Palace, o primeiro hotel de luxo da capital.
Por décadas, foi sinônimo de conforto e elegância. Hoje, é um corpo sem alma, pichado, esvaziado, murado por blocos de concreto e tomado pelo silêncio das ruínas.
De longe, o prédio ainda parece promissor; de perto, cheira a mofo, fumaça e abandono.
O que já foi cenário de recepções, coquetéis e hospedagens de autoridades hoje serve de abrigo para usuários de drogas e pessoas em situação de rua.
Não é apenas um edifício em colapso. É o retrato de uma cidade que permitiu que o luxo se tornasse lixo.
O sonho de1973
O Torre Palace nasceu em 1973, quando Brasília ainda era um esboço otimista de futuro.
Idealizado pelo empresário Jibran El-Hadj, libanês que acreditava na vocação da capital para a modernidade, o hotel tinha 14 andares e 140 apartamentos, todos com vista para o Eixo Monumental.
Da sacada, via-se o Congresso Nacional, a Catedral, o Museu da República e o Estádio Mané Garrincha.
Era o símbolo de uma cidade em ascensão.
Durante quarenta anos, hospedou políticos, diplomatas e celebridades.
Mas em 2000, com a morte do patriarca, o luxo começou a ruir. Não por falta de hóspedes, mas de sucessores.
Herança e conflito
Avaliado à época em 200 milhões de reais, o patrimônio foi herdado pela esposa e seis filhos de Jibran.
A partilha transformou-se em disputa: uns queriam vender, outros manter, e nenhum quis ceder.
Em 2007, três herdeiros romperam a sociedade e recorreram à Justiça, exigindo 51 milhões de reais, valor que seria pago pela venda do hotel a uma construtora.
Mas a transação foi travada por uma penhora judicial, e o negócio naufragou antes da escritura.
A partir dali, o Torre Palace entrou em coma.
Em 2013, o hotel fechou as portas e iniciou um novo capítulo, não de turismo, mas de litígio.
Nesse mesmo ano, os herdeiros firmaram um contrato com a Brookfield Incorporadora: a empresa receberia o prédio, arcaria com 126 milhões de reais referentes à dissolução societária e construiria um novo empreendimento no local.
O acordo previa lucros futuros compartilhados.
Nada disso ocorreu.
A incorporadora não conseguiu licença para a demolição, o projeto travou e o hotel foi abandonado.
O resultado foi uma dívida acumulada de 128 milhões de reais, somando tributos, processos, contas de energia, IPTU, TLP, encargos trabalhistas e aluguéis pagos pelos antigos sócios.
Do luxo ao limbo
Com as portas fechadas, vieram os invasores.
Em 2015, o Torre Palace tornou-se uma cracolândia vertical.
O hall de mármore virou banheiro público; os quartos, tocas improvisadas; o teto, abrigo para o mosquito da dengue.
A Agefis chegou a recomendar a demolição total, mas a indefinição judicial paralisou qualquer ação.
No ano seguinte, o GDF gastou 802,9 mil reais em uma operação militar para desocupar o prédio.
Dois helicópteros, bombas de efeito moral, balas de borracha e duzentas pessoas removidas em 35 minutos.
Não houve reembolso.
O lacre resistiu menos que a necessidade humana. Meses depois, o hotel foi invadido novamente.
Leilões frustrados e a nova justiça lenta
A Justiça tentou fazer do impasse um método.
Em 2019, o GDF pediu a demolição, mas um laudo pericial concluiu que, apesar da decadência, não havia risco estrutural iminente.
A sentença substituiu a demolição por manutenção: os donos deveriam restaurar o edifício, sob multa diária de 5 mil reais, até o limite de 5 milhões.
Nada foi feito.
Em 2020, o prédio foi a leilão por 35 milhões de reais.
Não apareceu comprador.
Na segunda rodada, foi arrematado por 17,6 milhões pela RBS Administração de Imóveis, que desistiu dias depois.
Hoje, o imóvel está novamente nas mãos dos herdeiros, com sucessivas transferências societárias e nenhuma obra de manutenção.
Conta final
Dívidas e valores consolidados do Torre Palace
- Dissolução societária: 126 milhões de reais
- Obrigações tributárias (PGFN): 589,4 mil reais
- Execuções fiscais (DF e GO): 565,4 mil reais
- Rescisões trabalhistas: 301,8 mil reais
- Aluguéis de sócios desalojados: 197,7 mil reais
- IPTU e TLP atrasados: 182,4 mil reais
- Custos da desocupação: 100 mil reais
- Reclamações trabalhistas: 120 mil reais
- Energia elétrica (CEB): 28,5 mil reais
Total estimado: 128.095.087,40 reais
O número é grotesco, mas não é o maior problema.
O verdadeiro abismo é o tempo: doze anos de inércia, oito de disputas e nenhuma sentença executada.
Um prédio que não pode ser vendido, demolido nem restaurado.
Um corpo jurídico em decomposição.
O preço do abandono
O Torre Palace já foi espelho do progresso; hoje é espelho do descuido.
Ali está o retrato de uma herança sem comando, de um Estado que legisla em círculos e de uma cidade que se acostumou a conviver com o fracasso de seus próprios símbolos.
Não é apenas uma questão de demolição ou restauro.
É o nome de uma família que não chegou a um acordo.
É o orçamento público que financiou uma desocupação sem retorno.
É a vizinhança que vive com medo e a capital que aprende a naturalizar ruínas recentes.
Brasília foi planejada para o futuro.
Mas, no endereço do Torre Palace, o futuro virou depósito do passado.
Alguns prédios desabam porque envelhecem.
Outros permanecem de pé para que se veja melhor o que já caiu.
Este conteúdo foi produzido com o apoio de ferramentas de inteligência artificial e revisado por nossa equipe editorial
Foto: Renato Araújo/Agência Brasília

João Cosme Souza e Silva Pereira
Sócio da Blue3 Investimentos e Especialista em Proteção Financeira e Planejamento Sucessório.
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