Saber o que não sabemos: a humildade como estratégia de investimento

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Saber o que não sabemos: a humildade como estratégia de investimento

10 set 2025

Rodrigo Guerra SilvaRodrigo Guerra Silva

"Há dois tipos de pessoas que perdem dinheiro: aqueles que não sabem nada e aqueles que sabem tudo." – Henry Kaufman

No mercado financeiro, o excesso de confiança é um dos erros mais fatais. Muitos investidores acreditam ser capazes de prever com precisão o que vai acontecer com os juros, a inflação, a Bolsa ou o câmbio. No entanto, como lembra Howard Marks em O Mais Importante para o Investidor, a incerteza é a única certeza que temos.

O verdadeiro segredo não está em tentar adivinhar o futuro, mas em reconhecer o que não sabemos, e, acima de tudo, em investir com prudência.

O mito das previsões

A indústria financeira está repleta de projeções, relatórios e modelos matemáticos que prometem antecipar os próximos movimentos da economia.

Mas a realidade é dura: as previsões quase sempre falham. Daniel Kahneman, Nobel de Economia, explica em Rápido e Devagar que o ser humano tem uma tendência natural à “ilusão de compreensão”: acreditamos entender o passado e, por isso, superestimamos nossa capacidade de prever o futuro.

Nassim Taleb, em A Lógica do Cisne Negro, reforça essa ideia: os eventos mais importantes e transformadores, crises, quebras, inovações disruptivas, são justamente os que ninguém previa. Confiar cegamente em modelos é, muitas vezes, preparar-se para o desastre.

Marks resume de forma clara: “É impossível investir sem fazer previsões, mas é essencial não confiar nelas em excesso.”

A humildade como ferramenta de proteção

Se não podemos prever com exatidão, o que nos resta? A resposta é a humildade. Reconhecer os limites do nosso conhecimento é uma estratégia de sobrevivência.

Warren Buffett costuma dizer que “é melhor estar aproximadamente certo do que precisamente errado”. Para ele, não é preciso adivinhar o movimento do mercado; basta comprar bons ativos a preços razoáveis e manter disciplina no longo prazo.

Essa postura humilde não é sinal de fraqueza, mas de sabedoria. O investidor que aceita não ter todas as respostas constrói portfólios preparados para diferentes cenários, e não para um único “cenário-base” que pode nunca se concretizar.

Gerenciar riscos é mais importante do que prever

Howard Marks insiste que a essência do investimento não está em adivinhar o futuro, mas em gerenciar riscos no presente. Perguntar “O que pode dar errado?” é mais valioso do que tentar antecipar “O que vai acontecer?”.

Taleb usa um exemplo poderoso: um “peru” alimentado todos os dias durante meses cria a certeza de que sempre será bem tratado, até que chega a véspera do Natal. O que parecia previsível era, na verdade, apenas uma ilusão estatística. Da mesma forma, investidores que confiam demais em tendências lineares ignoram que a quebra pode estar logo à frente.

Como aplicar na prática

O investidor que aceita sua ignorância parcial deve adotar três atitudes práticas:

  • Diversificação: espalhar recursos em diferentes classes de ativos e setores, reduzindo a dependência de uma única aposta.
  • Margem de segurança: conceito de Benjamin Graham que significa comprar ativos com desconto em relação ao valor intrínseco, criando uma proteção contra erros de cálculo.
  • Planos para cenários adversos: ao invés de prever apenas o cenário otimista, é preciso preparar-se para quedas inesperadas, crises políticas ou choques externos.

Marks escreve: “Investir é como atravessar uma estrada movimentada. Você não precisa prever exatamente quando os carros vão passar, mas deve saber como atravessar sem ser atropelado.”

Conclusão: a força de dizer “não sei”

No fim, a maior sabedoria do investidor está em reconhecer os próprios limites. A humildade não significa paralisia, mas a consciência de que o futuro é incerto e, portanto, deve ser enfrentado com preparo, disciplina e cautela.

Kaufman tinha razão: os que nada sabem e os que acham que sabem tudo compartilham o mesmo destino, perder dinheiro. O caminho do meio é o mais seguro: aceitar o que não sabemos e investir de forma a sobreviver ao imprevisível.

Como conclui Howard Marks, “na vida e nos investimentos, não é a certeza que nos protege, mas a capacidade de conviver com a incerteza”.

Rodrigo Guerra Silva

Rodrigo Guerra Silva

Engenheiro mecânico por formação e profissional no mercado de investimentos desde 2019. Com a certificação CFP, dedico-me a ajudar pessoas a alcançarem seus objetivos financeiros por meio de estratégias bem fundamentadas e uma abordagem personalizada.

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